6.11.09

Notícias!!!


arte da capa por Zé Roberto Soares Jr.
Estive distante das linhas deste blog por um certo período.

Mas há razões fortes para isso: estava preparando meu tão sonhado e estimado livro, que, a convite da Editora Palavra Castelhana, está em processo de impressão. Deve ficar pronto até o final de novembro.
É bom ressaltar que, graças aos leitores do Crônica Crua, alguns contos e crônicas foram para o livro. Consequentemente, sumiram deste espaço virtual. E o Evangelho Segundo Negão ganhou corpo e nele estão contidas histórias engraçadíssimas e fascinantes sobre a criação do mundo a partir do pampa, totalmente desconhecidas do público.
Compartilho ainda que, nesse meio tempo, o Velho do Saco apresentou o Analista de Bagé por outras querências e foi, inclusive, buscar mais dois prêmios. Desta vez no Festival de Teatro Art in Vento, na cidade de Osório, são eles:
* MELHOR ESPETÁCULO DO JÚRI POPULAR;
* PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI OFICIAL PELA EXCELÊNCIA EM INTERPRETAÇÃO.
Abração a todos.
Cor do texto

11.9.09

Cabelos Vermelhos


Numa tarde em que a chuva insistente abafa o prenúncio do perfume da primavera, uma composição estética de bilhões de fios devolvem à cidade a esperança do sol. Ela está de cabelos vermelhos.

Perfaçam seus planos de viagem, não se distanciem, evitem dirigir na chuva, peçam desconto aos camelôs. Ela está de cabelos vermelhos.

Se andarem de ônibus, sentem à janela, é possível que ela passe com seu chanel ilícito deixando um rastro de saudade no passeio público. Por que os seus cabelos estão vermelhos.

Encaminhem pedidos de isenção de impostos para calmantes e incensos. E aos gurus, procedam na cura coletiva, espalhem bolhas douradas de proteção a cada esquina, entoem mantras em lá sustenido. Ela está com os cabelos vermelhos.

Suspendam os trabalhos aos domingos, não privem um só trabalhador de estar à iminência de vê-la passar.

Se à tarde fizer sol e todos forem à praça tomar chimarrão, podem encontrá-la lá. Finjam discrição e a admirem de modo a não constrangê-la. É difícil vê-la tão bela, mas compreendam, ela está de cabelos vermelhos.

É necessário ter calma se, num semáforo, ela cruzar a faixa de segurança. Ela percorrerá cada retângulo de forma épica, e é possível que ouçam árias coloridas entoadas pelo ar a cada passo seu. Pois ela está de cabelos vermelhos. E o mundo está diferente.

Por isso, concedam anistia aos presos políticos, aumentem drasticamente a receita para a educação, retomem as cantigas de roda, ensinem poesia concreta às crianças. Porque ela está de cabelos vermelhos, e arte é uma urgência.

Evitem os excessos de maneira a não estarem ausentes, controlem o álcool e as coisas gordurosas. Sirvam pratos coloridos e não bebam água nas refeições. Ela está de cabelos vermelhos, e nossas vidas clamam por cuidado.

É possível encontrá-la à noite, e talvez não percebam o quanto são letais suas curvas e que o castanho dos olhos dela é a mistura das tintas de todas as paixões do mundo.

Mas se ousarem vislumbrá-la em toda sua desleal verticalidade, evitem chorar. Se o fizerem, colham as lágrimas e fertilizem seus jardins. Permitam que nasçam flores em ode aos seus cabelos vermelhos e que as crianças sintam seu perfume enquanto brincam de pegar.

Seria aceitável promover a paz entre parnasianos e modernistas, se a encontrassem à tarde tomando café na Rua do Ouvidor. Entre Picasso e Modigliani, se a vissem percorrer as ruelas de Barcelona numa tarde de sexta.
Ela está de cabelos vermelhos, que são a única verdade da arte.


arte de .. . luana

6.9.09

LEVAMOS!!!

Já estávamos lá, remoendo os egos com o consolo de uma indicação de melhor ator coadjuvante. Sabíamos que nada do que estava sendo distribuído nos pertencia, no entanto, fomos murchando sem mostrar um ao outro. Eu e o Zé Roberto, com a inusitada presença do grande amigo Fabiano (pois se como grupo não conseguimos ser uma família: na vitória e na iminente derrota e apesar de não sei o quê), ao menos temos amigos solidários.
Por fim, num anúncio rancoroso de um jurado engessado: e o MELHOR ESPETÁCULO DO JÚRI POPULAR vai para:
'O Analista de Bagé'.
Gritos meus e solavancos cardíacos. Ficamos tão atrapalhados que só o Zé Roberto subiu ao palco para receber o prêmio. E num lapso de rara genialidade, vociferou calmamente (isso é possível):
- O Analista de Bagé... é para o popular.
E nada mais.

31.8.09

Man in the Box


Antes de mais nada, preciso salientar que essa é só mais uma crônica do cotidiano. O meu, no caso. E que ela não tem nenhuma preocupação com o portal da transparência, com o golpe de estado em Honduras ou com a abertura da temporada de tufões na Flórida. Também sei que o título – que faz menção à mais famosa música de uma banda que gosto – não guarda relação alguma com a tradução que eu pretenderia fazer: homem no caixa.

Como pôr título nos textos é uma tarefa que me inferniza, faço o que posso. E provavelmente nunca chegue ao título ideal. Cheguei uma vez até a sonhar que eu era um grande escritor de Best Sellers que promovia concursos para que fossem escolhidos os nomes dos meus livros. Certa vez, sagrou-se campeão um indivíduo que deu a um estimado livro de memórias meu o nome inconveniente de Dom Bocaberta. No sonho, saí no tapa com os jurados e tentei atropelar o vencedor.

Mas estamos interessados em falar do homem no caixa. Pois bem, eis que fui num dos grandes mercados do centro daqui de São Leo. Fazer compras. Evidentemente. Ou como se dizia no filmes antigos com dublagens estranhas: comprar provisões. Mantimentos. Coloquei no carrinho o que o dinheiro contemplava. Meu kit básico se concentra em massa, molho pronto, pimentões, cebola, tomate, repolho, cenoura e, dadas minhas condições sociosubjetivas atuais, uma garrafa de conhaque – barata, é claro. Um dado importante, mais uma queixa derradeira cantada sobre o túmulo de Orpheu, é que percebi que, ao procurar os nomes dos corredores, fui apertando os olhos para ler melhor. Preciso de óculos, infelizmente. Mas vou apertando os olhos até onde der.

Pois bem. Cheguei ao caixa mais vazio. Uma mulher finalizava as compras. Retirava o cartão para passá-lo na maquininha. Fui tirando minhas coisas do carrinho e colocando sobre a esteira do caixa. Com meus fones no ouvido (pois ainda não consigo sincronizar muito bem os sentidos), demorei a perceber que ela olhava de soslaio para minhas compras. E de contrasoslaio – que é um movimento clássico do galanteio dissimulado – fui percebendo de quem se tratava. Morena clara. Com roupa de trabalho. Aqueles conjuntinhos que escondem as curvas mas nem tanto. No caso dela, era um quase nada. Curvas delineadas por um azul marinho. Curvas de setenta e cinco graus, daquelas que exigem perícia de quem ousa percorrê-las.
E ela, num movimento de mestra, conseguiu parece que mostrar que achou interessante o que eu comprava e na mesma investida de olhar analisar o dono das compras. Deve ser curioso mesmo. Um ser guedelhudo, carregando papéis à mostra numa pasta aberta, fazendo compra sozinho à noite. Um homem solteiro, pensaria ela, que faz comida com legumes, tem o seu valor. E nisso o cartão dela falhara duas vezes e só na terceira é que a compra foi finalizada. Nesse instante, lembrei de colocar o conhaque na esteira.

Parece que nesse instante ela reconstruiu todo o meu arquétipo de homem solteiro interessante. Olhou com desagrado descarado para a garrafa enquanto o empacotador guardava suas comprar. Na certa, inferiu que eu fosse um bêbado. Desses compulsivos que exalam álcool e se tornam desagradáveis e agressivos. Pensei em comentar para a moça do caixa “meu irmão pediu pra comprar, não é um abuso?”, ou “meu amigo tá fazendo aníver eu me pediu um conhaque de presente, vê se pode”. Ela fez cara de pressa, não comentei nada, ela logo se retirou com suas compras, sem olhar pra trás.

‘Grandes coisa!’, não gostei daquele pingente de igreja que ela estava usando e detesto brincos de prata. Aliás, o lábio inferior dela era muito pequeno. Não dá, definitivamente. Sorte a minha que eu coloquei a garrafa de conhaque na esteira a tempo. Que que ela está pensando?
É, isso nunca vou saber.
Eu acho.
antiarte de leandro coimbra

25.8.09

Prece de outono



Abençoai
os que fazem do conviver
o riso fácil.
Que não convergem na razão,
mas consolam na dor.
Eles, que na ânsia de ver passar
vaporam sonhos,
compõem versos,
fazem versões de canções velhas
para agonias novas,
aqueles que ensaiam trovas,
e não se preocupam em consumir
com a estética.

Abençoai o riso estático,
que nasce da voz frenética,
que contempla o beijo tácito,
que morre na frase hermética,
abençoai.

Abençoai ainda
os que não entendem,
por querer fugir da vida.
Os falsos indiferentes,
que sofrem calados
mergulhando na erudição.
Abençoai o falso não,
e sua serenidade pálida.

Abençoai os que vêm,
na enfermidade física,
acalentar ao amigo
sua moléstia do espírito,
que a paz esteja consigo.

Acalentai o desencarnar
dos suicidas,
que sofrem na alma
a dor da carne,
e aos que fraquejam por amor,
entendei-os mais,
pois sucumbem perante
a perfeição fugaz da tua engenharia.
Compreende os que abandonam o dia
e buscam consolo na noite,
privai-os, pois, do atroz açoite.

Abençoai os que não tem voz,
e guardam mil versos por declamar.
Os que amam o mar,
Mas têm medo d’água.
Os que não guardam mágoa
os que pecam,
e os que ainda vão pecar.

Abençoai a ausência
efêmera da alegria,
que se ela não poupa
os olhos de chorar
que ao menos deixe
bocas para rir.

Abençoai os que desesperam
por arrependimento,
sobretudo de quem foram
confiscados
o direito de perdão.

Abençoai a angústia de quem vive
E tende piedade da solidão de quem ama.

11.8.09

Queixas Noturnas

Sem preâmbulos trágicos e rodeios introdutórios vou compartilhar um causo que bem podeira ser mesoverídico ou uma inverdade plausível. Porém, trata-se de um fato verdadeiríssimo.
Vamos lá.
Vim participar do quinto Simpósio Internacional de Estudos de Gêneros Textuais, em Caxias do Sul, na UCS. Algo pomposo e importante para esse que vos escreve. Eis que o frio é cortante aqui em Caxias e a cidade parece que é pouco afeita ao convívio. No entanto, após um belo jantar custeado pelos jesuítas, dirijo-me para a pousado do Isaac. Adormeço feliz com o estômago cheio de massas e vinho, sentindo-me um verdadeiro pândego, tal qual um pícaro italiano.
Acordo no meio da noite do noite e fico curioso por saber as horas e ver quanto tempo tinha ainda para dormir. O celular estava na cabeceira da cama de madeira em que eu dormia, a um meio metro de altura. No escuro e deitado, apalpei a borda até o achar. Achei. Segurei ele com o braço levantado verticalmente. Apertei um botão qualquer para aparecer o mostrador iluminado. Vi as horas e fui devolvê-lo ao lugar de origem.
Porém, num ato irrefletido, meus dedos falsearam e o telefone ganhou o ar, entregando-se à arbritrária gravidade. Nessa cruel fatalidade física, esperei atônito pelo fim de um eterno meio segundo. A verticalidade pôs o celular de pé, a mirar minha testa como um paraquedista desesperado. E foi rasgando o ar frio daquela pousada caxiense que o aparalelho veio abruptamente buscar conforto em minha testa.
Essa atitude injusta causou-me uma dor convicta, atingindo-me quase na extremidade da sobrancelha esquerda. Ponderei, não sem antes me contorcer de dor na cama a evitar um berro inconveniente, que isso era injusto. Aquele pequeno aparelho, sempre a servir-me com disciplina, conectando-me às pessoas no mundo, era agora meu algoz noturno.
Conformado pela fatalidade do ato, fui recompondo o sono quando senti que algo vertia em minha fronte, já tão pouco privilegiada pela natureza.
Não era possível!
Eu, que deixei de sangrar por inúmeras pancadas no esporte coletivo brasileiro, quedas bicicletais, automarteladas e marteladas de terceiros, atos bem mais edificantes e honrados, agora sangrava por um acontecimento tão estúpido, nada representativo para a história humana.
Pois eis que, cara leitora, abri um rasgo tímido de uns seis milímetros verticais, que se dispôs a denunciar ao mundo minha bocabertice, a qual certamente causaria inveja em qualquer roteiro do Mel Brooks.
Aquele que me avistar pelos próximos dias verá que não minto. E certamente poderá rir. É o meu preço a pagar.

29.7.09

DIÁRIO METROPOLITANO III



Na inexistência de fragmentos românticos, imaginei uma cena metropolitana, com pitadas homeopáticas de inimagináveis pieguices.

Uma tarde qualquer de férias de inverno. Pode ser um terça. Um cenário melancólico, cheio de um cinza repleto de lirismo e súplicas. Nessa imaginação, penso um trajeto de trem, em que paro numa estação e encontro ela. Vestida de inverno e com uma faixa delicada no cabelo. Com a mesma boca insinuante que contrastava com o dia útil. Aquilo seria uma boca lasciva demais para uma plataforma de trem. Mesmo assim estaria ali, corrompendo as pudicas senhoras da tarde. E eu, nesse contexto, disfarçaria interesse e comporia as mesmas mesuras de homem cortês, tantas vezes ensaiadas perante o espelho.

Num arroubo de romantismo, doravante, imaginaria ainda a possibilidade de uma conversa que tergiversasse teorias literárias, possibilidades lingüísticas e sofismas filosóficos, desde o trem, passando pela Rua da Praia até um sétimo andar qualquer que avistasse o rio e que servisse café. Para arrebatar um intermédio de idealização, ponderaríamos pedir chope no lugar de café, apesar dos nove graus de frio. Ou seja, um choque de imaginário goetheano, totalmente impensável para uma tarde gelada de uma terça de julho. Sobretudo se supuséssemos que ela pudesse compor teorias religiosas com doçura e propriedade, impondo um desafio cruel: prestar atenção à sua teoria ou desviar o olhar daquela boca.

De repente, entraríamos, com receio do frio, para o interior desse andar e, lado a lado, percorreríamos narrativas em andamento e os desafios da construção da personagem. E nada seria mais surreal, porém, do que se uma dupla solitária entoasse, num palco no cantinho do andar, bossa nova só pra gente e pros garçons ouvirmos. Mais que isso seria pensar que esse cenário todo abriria as cortinas praquele beijo natural, que é dado sem prévio acordo e que vem cheio de implicações poéticas.

Depois de dez chopes seria razoável até que os garçons esquecessem de marcar um ou dois. Desceríamos o elevador contando vantagem e num abraço inconseqüente. Na certeza de que aquilo tudo seria um mero fragmento na cronologia fugaz das nossas vidas. No trem, já no retorno, escolheríamos o banco mais improvável, no cantinho do vagão, aquele em que só cabem duas pessoas. E ela, numa atitude irrefletida, sobreporia as pernas dela nas minhas e seguiríamos silentes estação por estação, compartilhando os fones do radinho.

Num ápice de adolescência, no entanto, ao descermos do trem, mesmo prometendo pra mim mesmo que não, eu insistiria pra que ficássemos mais uns momentos juntos. Num beijo afetuoso, nos despediríamos. Os motoristas engatariam a primeira marcha e a noite começaria a morrer.

Entretanto, na inexistência de fragmentos românticos, vou esperando a madrugada adormecer. Amanhã é quarta-feira. Temos que nos inscrever pro festival de teatro de Gravataí. Faremos o roteiro da nossa nova comédia. Tenho artigos a formatar pro livro da nossa pesquisa. O fusca está sem gasolina e tem cover de Chico Buarque na sexta.

14.1.09

Promete!

Dirigindo-se ao carro, segurando duas baquetas, um cubo Meteoro e uma guitarra Gianinni velha, azul e branca, à tiracolo, ele se dirige pra o Chevette 83 marrom com pressa e tenta dar atenção a ela, que o enche de orientações sociais:
- Tu acha que tocar samba-rock e ficar com essas coisas de mantra vão te trazer algum benefício?
-... (ajeita a guitarra no ombro direito).
- Por que tu ta usando essa bata branca de novo? Já te disse que tu parece um ripe!
- ... (chega no carro e larga o cubo no chão).
- Eu não sei, não sei onde tu quer chegar com essa barba por fazer e essa cera no cabelo. Tu é tão bonito. Te cuida. Corta essa cabelo e arruma um emprego. Tu acha que um homem assim consegue “alguma coisa”[1]?
-... (abre o porta-malas do Chevette).
- Eu tô preocupada contigo!
- Por quê?
- Esses shows que tu faz. Um monte de mulheres dando em cima de ti. Não gosto.
- Tu não tem que te preocupar.
- Claro que não né? Tu com esses drédi lóquis. Esses colares indígenas. Essas tatuagens esotéricas nos braços. Essas batas de algodão. Quem vai se interessar?
- Pois é, por que essa neurose?
- Não sei, me preocupo, me dá um ciuminho, mesmo assim.
- Bobagem.
- Bobagem nada. E tem mais, essas cachaçadas. Acha que eu não sei que a mulherada fica louquinha quando toma um trago.
- E daí?
- Daí que os primeiros caras da festa pra quem elas olham são os músicos.
- Mas a gente está lá pra trabalhar.
- E ainda tocam Samba Rock, elas ficam doidinhas pra dançar. E mais, vou te dizer uma coisa: se eu souber que tu anda tocando Alceu Valença pra mulherada, eu te mato!
- Tá bom!
- Promete?
- O quê?
- Que não toca Alceu Valença?
- Se eu não tocar Anunciação, nem nos contratam.
- Tá bom. Mas promete uma coisa?
- O quê?
- Que quando tu cantar a parte “eu já escuto os teus sinais”, não vai dar aquele risinho sacana pra mulherada, que nem tu deu pra mim naquele luau da Guarda e depois me levou pro camping do baiano.
- Prometo!
- Outra coisa.
- O quê?
- Não quero que tu fume!
- Tu sabe que eu larguei o cigarro a três anos.
- Não te faz!
- Como assim!
- Assim mesmo!
- Assim como!
- Não quero que tu fume maconha!
- Tá bom! (Entrou no carro)
- Promete que vai segurar tua onda?
- Prometo! (Prendeu o cinto e deu a partida)
- Tchau! (Deu-lhe um beijo cheio de saudade)
- Voltamos semana que vem! (Engatou a primeira)
- Onde vocês vão tocar amor? (Gritou)
- No Psicodália! (Engatou a segunda e cantou pneu)
-... (Gritou)

[1] As aspas são notas do narrador.

29.12.08

O TORNOZELO (Final)


*****
(...)
Enorme. E como o mar dentro da treva
Num Constante arremesso largo e aflito
Eu me espedaço em vão contra o infinito. (...) Vinícius de Morares



Caminhou ansioso e rápido até a livraria, foi se aproximando e abrindo a bolsa, que tinha limpado para que recebesse o novo objeto, o novo amigo do Martinho. Antes de atravessar a rua, já olhava para as prateleiras e arregalava os olhos procurando o livro branco. Atravessou rapidamente e entrou convicto na livraria. Iria pegar seu livro já entregar o dinheiro ao livreiro. Procurou-o com calma. Firmou os olhos e apontou o dedo livro por livro até chegar ao seu. Abaixou o dedo e começou a desamassar a nota de dez e a de cinco que estavam na carteira e que quis ajeitá-las, como se aquilo fizesse com que seu dinheiro fosse mais honrado, que valesse de fato os quinzes reais. Lentamente, ele seguia passando os olhos nas estantes e desamassando as notas com ambas as mãos, pensando nos próximos capítulos, ávido por avançar no carisma daquele homem que falava sobre si, mas de quem ele nunca ouvira falar.

Otimista, ele começava a perceber que estava difícil de achar o livro e sem cogitar a possibilidade de que o tivessem levado perguntou dele para o livreiro, que, sorrindo, respondeu: saiu hoje de manhã esse livro. Saiu? Sim. Compraram. E não tem outro? Não, esse livro aparece pouco.

Martinho foi, vagarosamente, amassando as notas e colocando-as na bolsa. O livreiro o perguntou se seria só esse, se ele não queria dar uma olhada em outras coisas. Educamente, ele disse um não, obrigado! E sentiu como se lhe tivessem avisado que seu melhor amigo, de verdade, tinha ido embora na noite anterior, sem se despedir nem deixar carta.

Sem saber o que pensar, fechou a bolsa e saiu a caminhar, sem fixar-se em nada, mancando timidamente.

Ao chegar à primeira esquina, sentiu que o tornozelo não lhe doía mais. Parou de mancar, e foi pegar o ônibus.
***** fotos de Carol Whatever

28.12.08

O TORNOZELO (parte 2)



Mas no dia em que, salpicando um segundo andar, ele caiu do andaime, não machucou grande coisa, a não ser um mau jeito no tornozelo que lhe doeu impiedosamente e o fez mancar por aquele resto de terça, sem parar doer. Nesse tempo, passou a viagem de trem em pé e desceu na última estação com dores mais fortes. E caminhando devagar pôde olhar com calma pra dentro daquela livraria. E viu um colorido simpático de livros dispostos com exatidão e cuidado do livreiro. Entre seus olhos cansados e o colorido simpático percebeu uma cadeira vazia. Nesse movimento todo, achou que poderia descansar ali o tornozelo até chegar à parada de ônibus. E o fez!

Sentou-se com cuidado e vergonha. Sentindo-se estranho entre tanta gente estranha. Cabelos coloridos, roupas diferentes, conversas pouco compreensíveis, cigarros que formavam um tipo de fogueira do desespero. Mas nada era mais caro do que alívio de tirar o tornozelo do chão, e de olhar praquelas cores harmoniosas e pacíficas que se perfilavam nas estantes.

Numa fisgada de dor, fechou os olhos para contê-la e só os abriu quando passou. E ao abrir, percebeu que seus olhos estavam fixos com convicção em um livro branco, de letras azuis e pretas, e o desenho de dois homens jogando damas em um grande tabuleiro. Pediu para ir ao banheiro, e foi. Lavou as mãos, voltou. Pediu por favor se poderia folhar um livro. Escolheu aquele. Pegou com cuidado, sentou novamente. Era uma autobiografia. Contendo a dor no tornozelo ele começou a folhear e parou-se depois dos agradecimentos, sumários e outras páginas já no segundo capítulo.

Parece que lhe chamou instintivamente a atenção uma frase que no início do texto dizia “vou escrever alguma coisa que não sei o que seja, justamente para ficar sabendo”. Um pouco sem entender, aquela frase lhe soou amiga. Ele sorriu. Fechou o livro e ficou pensando naquilo como quem pondera sobre fazer ou não uma assinatura de jornal. Leu mais um pouco, com dificuldade em entender algumas palavras, e entregou o livro ao livreiro. Agradeceu. E tendo recebido um sorriso e um adeus joviais do homem, pensou que talvez pudesse continuar a leitura amanhã. Aquela parada tinha feito-lhe bem. Conseguia caminhar um pouco mais rápido e agora tinha algo a mais em que pensar, algo que não lhe era forçado pensar.

No outro dia foi pego escrevendo no chão “encadeamento”. Logo depois, surgiu um “Flaubert” riscado em laranja num cano de concreto, sem o”t” final. Questionado pelo colega, ele disse que escrevia essas palavras porque não as conhecia, e que assim teria a possibilidade de conhecê-las: escrevendo. Nesse mesmo dia, chegou timidamente à livraria e cumpriu o mesmo ritual do dia anterior. Saiu de lá empertigado, com o tornozelo descansado, embora com leves dores, pensado no quanto seria estranho se os grilos não cantassem mais, como teria lido no livro. À noite, fechou os olhos, e tentou imaginar a noite sem eles, e ponderou que não era possível e que isso realmente era algo desagradável. Ele desconhecia a função dos grilos, mas era indispensável que eles continuassem cantando.

No dia seguinte e nos três que se seguiram, descansou o tornozelo entre a cadeira e o livro e enquanto mais pensava no livro menos o tornozelo lhe doía. Num quarto dia, porém, não havia lugar em que se sentar e passou lentamente e aborrecido pela livraria, mirou o livro lá na estante e resolveu seguir pra parada. Aquela quebra na sua rotina aborreceu-o. Seguiu contrariado para casa. Pensou, então, que o melhor seria se o livro fosse dele, que agora ele precisava do livro e que ler o restante lhe era imprescindível. Perguntou, no outro dia, quanto o livro custava. Quinze reais, respondeu o livreiro. Martinho engoliu seco e seguiu pra casa. Afinal, com quinze reais compra-se muito leite, ou muito pão, bastante carne moída ou talvez arroz e feijão. Num bom mês pode-se pagar quem sabe a conta da água. Ainda assim, pensou que poderia dar um jeito, que sua mulher não precisaria saber e que nada faltaria dentro de casa.

Durante uns sete dias seguiu lendo com alegria, entre dias que não havia cadeira para sentar. Decidiu contar moedas e tentar um trabalho extra com um conhecido da obra. Conseguiu descarregar um caminhão e carregá-lo de outras coisas num armazém perto da construção. Ganhou dez reais e contou um real e cinqüenta na bolsa. Estava quase. Chegou tarde em casa naquele dia e não pôde ler. Ia compondo as histórias do escritor em sua cabeça e as contava para os colegas em casa e para sua mulher à noite, que lhe perguntava sobre o tornozelo e pedia farinha de trigo para fazer pão no outro dia e um vale transporte para ir fazer uma faxina em Sapucaia.

Naquela noite, descobriu em sua bagunça, um disco de música sertaneja, quase novo, e deu um jeito de achar quem o comprasse por cinco reais. Passou o dia seguinte contando os minutos para chegar orgulhoso na livraria e levar seu livro. Livrando-se do problema de às vezes não ter lugar para ler. Já com menos dores no tornozelo, mancava menos e sorria mais, falando sozinho vez em quando, lembrando frases e atraindo olhares no trem, a uma estação do final, postou-se na porta.


19.12.08

O TORNOZELO (parte 1)

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... Martinho trabalhava, e ainda deve trabalhar, nessas empreiteiras de construção civil que se espalham pela região metropolitana, mais pras bandas de Canoas. Ele é pedreiro. Mais precisamente na obra ele é o que a gente se convencionou a chamar de peão. O servente.
Martinho é desses caras que a gente não sabe mais a idade que tem. Não se sabe a cor exata que tem. A idade engana pelo cansaço da obra. Pela força desproporcional que se faz todo o dia. Baldes alçados pelas roldanas. As mãos que, cansadas do sufocamento das luvas, pedem para respirar e não se importam com os calos, nem em ser abrigo de felpas. O céu no trecho insiste em ser cinza, e cada respingo do salpique que volta no rosto é como se insistisse em roubar um dia da sua vida. A cor engana pelo amontoamento de sol a que a obra não deixa escapatória. Sol autoritário. Intransigente. E o vento. Traz coisas ásperas, traz as dores dos outros, levanta o pó cinza e hostil do cimento que se mistura com o pó laranja e renitente dos tijolos. É certo que o vento traz as nuvens que tampam o sol, que por ventura trazem a chuva, mas nem mesmo esta é desejável na obra.

Em meio a tudo isso, Martinho perde a conta de saber o que é bom realmente. Era pro frio ser bom, mas ele parece que só quer ver sangue, a ponto de não se poder nem bem pegar uma telha brasilit com pouco cuidado que já um esfolamento é motivo de chateação, haja sangue e saco.
No fundo, Martinho sabe que todo esse contexto lhe quer ser hostil. Mas em casa há quem o espera a ele e não entende bem se algum dia de noite faltar ovo frito com feijão. Ou também pode estranhar se algum dia de manhã o café com leite estiver sem leite. Sendo assim, não lhe pode ser hostil o fardo que lhe garante pagar o caderno da venda, ainda que seja, não pode.
Usa sempre uma calça azul marinho. Acinzentada pelo pó do cimento, e também carregando um pouco de cor ocre da terra, da areia de construção.

E assim, fingindo não ver as agruras do tempo, vai mudando de trajeto. A casa é a mesma. As obras nunca são. Então cada trajeto oferece uma nova paisagem. Essas paisagens mudam todos os dias. A cada dia, muita coisa é itinerante, as pessoas são itinerantes, os cachorros, os sacos de lixo, os carros, os sonhos. Nas paisagens, porém, não mudam de lugar as casas, os postes, os mercados, as preces, as livrarias. Dessas últimas, uma fica perto da estação de trem. Os livros bem dispostos em estantes de madeira. Muito convidativas. As quais são vislumbradas da rua por entre o vão de duas grandes portas com cortinas de aço, por onde se vê também umas mesas marrons com cadeiras de madeira com palha.

Entre o instante em que ele desembarca do trem e o momento em que ele pega um outro ônibus para ir pra casa, existe um tempo generoso com que se pode fazer muitas coisas. Nesse tempo rapidamente ele caminha até a parada, como se fosse perder a condução, mas o que ele tem mesmo é receio de caminhar devagar e passar por desocupado. E ao chegar à parada ele procura um lugar pra sentar. Senta. Põe-se a acompanhar o movimento do cansaço do dia, no momento em que todos vão pra casa. Vê os ambulantes venderem coisas de todo tipo. Diz não para os vendedores de vale-transporte. Em suma, diz não a todas as coisas que lhe oferecem, as que não precisa e as que não pode comprar.

20.11.08

prosa poética

E essa mania de andar sorrindo tem-me rendido muitos e afáveis amigos. E a cada gracejo uma gargalhada ensaia um choro involuntário cheio de rubor e falta gostosa de ar. E essa mania de andar cantando de BL no rosto e fone no ouvido me rende comentários escondidos que os vejo, mas não ouço. Esqueço a letra, cismo, e não rimo.

E essa tua mania de ser o que eu sempre quis tem-me tirado o sono. E a cada bocejo de dia é um choro involuntário e um sorriso a menos. E essa mania de ir embora pra sempre me tem deixado sem graça. Perco o tempo do verso, e não rimo.

23.10.08

Um certo fanfarrão Berú

Foto: Carol Whatever sobre quadro de Jader Santini

Da vez que o povoado de Jiruá vivia em paz havia uns seis anos, não sei dizer bem ao certo de mês a mais ou mês a menos, mas que era bem sabido que de confusão e morte matada se via livre o povo de Jiruá, um certo malandro malvado e fanfarrão Guilhermino Berú achou de se sentar praça e maldade fácil naquela cercania de gente que de tanto viver em paz nem sabia pegar em faca a não ser pra cortar carne seca e macaxeira.

Negro Luis, pai de santo e amigo meu, diz que de tanto se enfezar com gente de bem e valentão meia-boca, hora ou outra o cabra de sangue ruim há de topar com um mais malvado, e daí é hora de separar homem de criança. E não é que o Negro bem é que tinha razão, pois foi do Guilhermino Berú dar de machão pras bandas de Aguaceiro que deu o maior azar do mundo. Foi topar com o Pedro Não-vai-com-as-caras passando pernoite na pensão de Maria Branca.

Era de paz o Pedro, mas arrastava uma tropa de zebu a soco e pancada se encontrasse caboclo fanfarrão. Nessa mexida de inda e vinda deu com o Guilhermino inventando bate-boca pra não pagar pouso à Maria Branca, que era senhora de afeto e muita consideração com os clientes e vizinhos da banda de Aguaceiro. Pedro Não-vai-com-as-caras apareceu de passeio pela porta alta. Era grande o Pedro, se era. Já tinha passado de dois metros fazia tempo. A cabeça era enorme e era guedelhudo de cabelo. Um olho grande e marrom de cavalo, meio índio meio não-sei-quê de asiático e com uma barba que tapava todo o queixo e o maxilar.

A grandeza do Pedro cruzou a porta e fez sombra na pensão. Era igual se o tempo fechasse mesmo. E fechou pro Guilhermino, que já se virou desaforado achando que algum intrometido encostava a porta da frente. Mas foi bonito de ver é o Guilhermino caboclo ficar branco que nem japonês, todo tão esfrangalhado com cara de não-quero-levar-pau, que só vendo. E o Não-vai-com-as-caras já foi logo juntando o Guilhermino pelo cangote – que em malandro ele gostava de bater – e jogou ele em direção à porta que nem estivador descarregando saco de farinha. O malvado caiu de quatro e não é que o Pedro juntou um pontapé certeiro bem no meio das nádegas do jagunço. A bota dura do Não-vai-com-as-caras separou as duas bundas do Guilhermino Beru que nem precisa dizer onde é que parou. O Berú não fez barulho de dor pra não lançar chacota, mas não adiantou. Homem que toma chute num lugar desse perdeu o respeito, ainda mais quando corre lágrima do olho do caboclo como se deu no causo. O Pedro nem precisou dizer pro Guilhermino sumir que o homem já se arrancou porta fora, com as pernas abertas que parecia que tinha corrido vinte légua em lombo de mula sem arreio.

Foi um corre-fofoca tão ligeiro que quando saiu de Aguaceiro lá em Jiruá já se sabia do chute no rabo do Berú. Quando deu da chegada dele na cidadezinha o pessoal se encolhia pra rir, mas se apertava de medo, porque como diz o Negro Luis, homem desonrado é homem matador. E não é que o Guilhermino andava a fim de fazer gente deixar de existir quando entrou no bar do Alceu Peróba? É. Entrou e foi logo saindo com cinco pedras na mão, como se o pessoal que andava por ali – de cachaça e baralho – tirando o pó do trabalho tivesse culpa dele andar desregueado por aí. Foi logo dando ordem de não tira farinha comigo e vou beber de graça. Lá no canto do bar um cabra amarrava o cadarço e fez pouco caso da bravata do fanfarrão e o Beru viu e já saiu prometendo: fica aí que eu vou tirar água do joelho pra te furar esse lombo desaforado. E foi pra latrina, na rua, bem sim-senhor.

E não é que enquanto Berú descarregava água a casinha da patente veio abaixo? Parecia terremoto. Madeira sobre madeira e prego enferrujado entrando na bunda do Guilhermino. Era o Pedro. O cabra que amarrava as botas e foi prometido pelo Beru dentro do bar era o Pedro Não-vai-com-as-caras. Foi um gritedo bonito de ouvir. O Pedro deu dois pulos encima do maderame e parecia que o Beru era um porco sendo carneado errado. Mas o Pedro foi bondoso e ainda tirou uma madeira da cara do Guilhermino que era pra ele ver de quem tava apanhando. E ainda avisou uma coisa que era pra ficar mais humilhante, que eu não te mato agora que anda me fazendo falta quem mereça apanhar.

10.10.08

Amigos

[...]Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem
que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.

Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro,
embora não declare e não os procure.

E às vezes, quando os procuro,
noto que eles não tem noção de como me são necessários[...]
Vinícius de Moraes



Ontem à tarde, no percurso de uma roda de chimarrão entre amigos, toca o telefone celular. Em princípio, uma interrupção em mau momento, pois cortava nossas risadas e afetos ao meio.
Tratava-se de um grande amigo da faculdade, com quem já compartilhei desde discussões complexas e sonolentas sobre linguística até meus êxitos sociais e dissabores amorosos, entre cervejas rápidas e pratos de comida. Atendi:
- Alô!
- Precisa fazer essa voz de macho pra atender?
Dei réplica ao gracejo e continuamos por ali uns quatro minutos, entre bobagens e retóricas enferrujadas. Enfim, fiz aquela clássica pergunta:
- Então, o que que manda?
- Tá onde?
- Na faculdade, tomando um chimas com o pessoal.
Fez mais gracejos, riu por eu ainda estar ali depois de formado, me cobrou a ausência no aniversário dele, e eu quase cobrei a dele na minha formatura. Eu disse que explicaria pessoalmente, mas que lamentava não ter ido. Ele não mora longe. Taquara é aqui perto, quarenta minutos de carro. Continuou:
- Como é tu tá?
- Tranquilo, tranquilo. – resposta de protocolo.
Perguntei também como ele estava, os estudos, a Ana...
Ele consentiu que tudo bem e eu perguntei “e no mais?”, esperando, por fim, a razão por ele ter ligado. Pediria um favor qualquer, para falar com alguém, solicitar pouso como já fizera, qualquer coisa.
Continou querendo saber de mim, do trabalho, eu brevemente disse que as coisas estavam se encaminhando, que a vida aos poucos se ajeita e que tínhamos de nos ver.
Marcamos de nos ver uma hora dessas, ele começou a se despedir aos poucos, fizemos as mesuras de amigos, nos despedimos, desligamos.
Essa mera lembrança dele me fixou o pensamento ao longe e fui vagarosamente, por dentro, sendo tomado de um sorriso que durou quase até o fim da noite: ele tinha me ligado pra saber como eu estava, somente isso.

15.8.08

Faz 31 anos que o Elvis morreu ou Não tenho dinheiro pra te comprar um presente

Nunca pensei em casar,
mas s’eu encontrar uma mulher
que goste de Rock ‘n Roll e bossa nova
eu finjo que preciso descer
na mesma parada de ônibus que ela
e desço

se ela passar por mim
vestida de sessentista
eu olho pra trás e tropeço

e se ela me aparecer,
de repente, com a franja aparada
e o cabelo vermelho,
desmarco a cervejada
e desapareço

se ela disser que gosta de poesia
eu tento conter o sorriso,
se ela disser que as escreve
eu [*]
choro

se os olhos dela forem azuis
eu não me importo,
mas se forem castanhos
eu perco a pose,
e nem pisco

se ela souber o sentido dos sonhos
eu silencio e ouço,
se surgir o céu no centro
do seu olho,
eu cego
e nem sinto

se ela adorar cinema,
e se usar all star,
e se falar bobisses,
e gostar de voltar a fita
pra entender o filme,
eu faço um plano de marketing
eu marco um chima

se ela entender de diálogos
e de dia analisar os discursos
e ponderar as conversas,
e se de noite, compondo versos,
discursar análises,
eu me empertigo,
e não me perco

se ela me convidar pr’um vinho
eu estremeço
esqueço o último ônibus
eu perco

e se por acaso
depois do sexo
ela sentir desejo
de comer pipoca

eu caso.


[*] (não consigo conter o)

13.5.08

Molière ou Nem preciso dizer que eu adorei teu cabelo vermelho


Ela escreveu um recado dizendo que o tinha visto na tv, no programa do meio dia, o do almoço. Muitos viram. Alguns amigos e conhecidos o abordavam na rua e o mandavam recados.
Grandes coisa, teoricamente, grandes coisa.

Era o espetáculo de inauguração do Teatro Municipal. Ele era parte do elenco que contaria a história do teatro e da dança. Encenaria Molière e mais uns dois narradores.

Aproveitou pra convidá-la. “Aproveita e vai ver o espetáculo sábado ou domingo, 19h. Chega meia hora antes pra pegar senha, é de graça”. Nem beijo nem abraço. Só gentileza. Tantos são os amigos que vão, fora os que prometem e não vão e que são compensados pelos que não prometem e acabam indo. Ah! Mais um convite solto. Solto?

Dia do espetáculo, chuvoso e pouco acolhedor.
Eis que num sorvo ansiado e violento, Molière toma um gole generoso de cachaça de alambique – elemento infaltável a uma estréia – e se posiciona na coxia.

Hamlet dá seu texto e Molière surge lânguido do último refúgio do lado direito do palco e posiciona-se no centro, bem no pino central da luz. E num súbito virar de frente para o público, encontra Ela na primeira fila.

Em três segundos, e mesmo sem dedicar a Ela um olhar exclusivo, Molière consegue perceber a energia que o sorriso dEla emanava para o palco, como cem coros entoando a nona sinfonia ou um solo de trinta John Frusciantes.

Do olhar dela brotava a vivacidade de dez jardins da infância na hora da merenda, e Ele era a merendeira no primeiro dia de trabalho. Ainda assim, Molière manteve-se impassível, ignorando os fatos que na vida pregressa daquele ator poderiam tirar sua concentração.
Ela estava na primeira fila. E Molière dirigiu-se ao procênio.

Deu seu texto e retirou-se para dar espaço à dança da corte, após a qual tornaria à cena como Molière encenando Harpagon, o Avarento. Nesse intervalo, enquanto a dança evoluía harmoniosa e colorida, Ele postou-se discretamente atrás das coxias e buscou um vão entre elas pra que pudesse vê-la na platéia. Eis que durante uns minutos viu-se embasbacado admirando a expressão doce dEla ante o espetáculo.

Aqueles olhos brilhando como vaga-lumes sem dono, protegidos pela armação dos óculos, a mesma franjinha resignada acariciando a testa de pensamentos rebeldes e o sorriso de sol de primavera em Torres.
Era muita coisa enigmática que imantava Ele no vão daquelas cortinas e fazia da platéia o espetáculo mais autêntico que poderia ver.

5.5.08

Mohamed von KLYNNVLYCK



Mohamed Hussain von Klynnvlyck, filho de Khaled Obah Hussain e Ivanovna Salenko Klynnvlyck nasceu em meio à turbulência da guerra entre a antiga União Soviética e o Afeganistão no dia 11 de março de 1960. Sua mãe, enfermeira russa enviada pela Cruz Vermelha para prestar assistência aos feridos de guerra, apaixonou-se pelo soldado Talibã, Khaled, para quem prestara socorro por conta da explosão de uma mina que o mutilara ambas as pernas.
Após a descoberta da gravidez, que já estava com dois meses – no dia 5 de novembro. 1959 – começam a delinear o plano de fuga que iriam executar em cinco de março de 1960. Ele abandona a milícia e ela a Cruz Vermelha e ambos fogem correndo para a fronteira com o Paquistão, na qual são mortos por agentes da CIA no momento do parto de Klynnvlyck.



O bebe é entregue a um orfanato paquistanês e lá é raptado por um mercador laosiano. A três de julho de 1960 é registrado na cidade de Vientiene, capital do Laos, como filho de Gengys Nacatam Busarat, mercador mongol naturalizado laosiano, a criança é registrada sem genitora. Klynnvlyck cresce em meio às negociações de seu pai adotivo e conhece todos os países da Ásia já aos 14 anos, tornando-se pai aos quinze, com uma iraniana da mesma idade com quem vem a se casar, Jade Arafat. Aos dezessete anos termina seu casamento com Jade e abdica da guarda de Mohamed Arafat von Klynnvlyck.



Em viagem à Mongólia, terra natal de seu pai adotivo, no mesmo ano, conhece Antera Khen Lahraual, jornalista nômade de 28 anos com quem tem seu segundo filho, que não chega a conhecer. Aos dezoito, tendo concluído seu estudos no colégio regular, seu pai o manda para a Espanha onde cursa Letras Clássicas pela Universidade Católica de Compostela e publica seu primeiro livro, A Bondade da Ponte. Obra em que discute as relações sócio-culturais entre países colonizadores e colonizados, sobretudo os de língua espanhola e portuguesa. Aos 22 anos nasce seu terceiro filho, Juan Pablo Ruella Quiroga Hussain von Klynnvlyck , filho da prostituta madrilenha Sarenita Ruella Quiroga. Ele o registra, mas é preterido por Sarenita e parte para a Universidade Anglicana de Toulouse, na França, onde inicia o mestrado e lança seu segundo livro, O Eterno Efêmero. Torna-se Mestre em Sociologia Epistemológica da Sociedade Pré-Rural e lança sua terceira obra, O Pós-Indivíduo: Arquétipo Mesossocial da Interneutralidade Cosmopolita Endoexterna, livro alvo de severas críticas da Escola Européia de Pseudo-Estudos Sociais, diretamente influenciada por Zem Samael Ying.



Em 1988 titula-se Doutor em Relações Transversais na Psicologia Pós-Moderna Marloneana pela Universidade Estadual de Birmigham, Inglaterra, e só então lança suas quarta e quinta obras, O Vislumbramento Acadêmico Pós-Juvenil e A Retórica do Desespero. Em 1991, com a crise da maçã na Romênia, publica A Dialética da Solidão, seu sexto livro, com que ganha o prêmio The Big Man, da London Knowledge Institute.



Após concluir Pós-Doutorado na Universidade Sul-Americana de Assunção, no Paraguai, com a tese A Hipoanálise Transfrástica do Terceiro Parágrafo do Conto O Outro, de Jorge Luiz Borges: um diagnóstico positivista à Luz da Insanidade Pré-Apocalíptica, em 1995 lança sua sétima obra, A Tríplice Fronteira Enquanto Não-Lugar de Alteridade. Em 1997, com a morte de seu pai adotivo, aplica sua fortuna herdada em ações da Microsoft e obtém lucros exorbitantes com os quais garante sua vida intelectual livre e passa a trabalhar com a cura de patologias emergentes, como a dos pseudo-intelectuais paranóicos. Em 2001, lança o livro O Não-Papel do Pseudo-Intelectual na Sociedade Ocidental.



Atualmente, Klynnvlyck leciona na Universidade de Hanói, Vietnã, está em seu sétimo casamento e aguarda o oitavo filho, enquanto prepara a publicação de sua nona obra. Segue participando de discussões e palestras pelos quatro cantos do globo.



...
...
Biografia por Leandro Coimbra.

2.5.08

Conversa contemporânea de amigos

Leandro Coimbra diz:
olá minha flor
fabiano diz:
olá moranguinho
Leandro Coimbra diz:
oi minha trufa de doce de leite
Leandro Coimbra diz:
minha compota de abóbora
fabiano diz:
olá minha gota de orvalho do amanhacer de um rosa roxa
fabiano diz:
olá minha pequena joanianha
Leandro Coimbra diz:
olá meu doce de figo cristalizado
Leandro Coimbra diz:
minha cocada de maracujá comprada no gasômetro
fabiano diz:
olá meu pintinho
Leandro Coimbra diz:
minha pintcher preta
fabiano diz:
ah meu rouxinol pardo que canta ao amanhecer
Leandro Coimbra diz:
oh! meu girassol do solstício de verão
fabiano diz:
ah meu pinguim de geladeira
Leandro Coimbra diz:
minha guirlanda de natal
fabiano diz:
oh minha pequena folha de goiabeira
Leandro Coimbra diz:
minha doce pitanga madura
fabiano diz:
minha linda gazela que caminha como uma bela dançarina de mambo
Leandro Coimbra diz:
minha lânguida ema que gira como um capoeira de angola

17.4.08

poema

Eu acredito que o amor tenha tentado me visitar,
Mas ele não sabe meu endereço.

Acho que o amor ainda vai dar uma conferência no meu país,
Mas ele insiste em não tirar o passaporte.

O amor quer folhar as páginas impressas do meu livro,
E queimaram meus originais.

O amor prometeu tomar o café da manhã comigo,
Mas não amanhece.

Soube que o amor veio à galeria ver as telas que pintei,
Mas já tinham derrubado as paredes.

O amor me deu um sinal de fumaça,
E choveu.

Eu acredito que o amor tenha tentado me visitar,
Mas já tinham derrubado as paredes.

O amor quer folhar as páginas impressas do meu livro
Mas ele insiste em não tirar o passaporte

Acho que o amor ainda vai dar uma conferência no meu país,
Mas ele não sabe meu endereço

Soube que o amor veio à galeria ver as telas que pintei,
Mas não amanhece.

O amor me deu um sinal de fumaça,
E queimaram meus originais.

O amor prometeu tomar o café da manhã comigo,
E choveu.

14.3.08

Sobre bobisses, amores, chimarrão e outras adjacências

É possível ser feliz ouvindo Quatro Estações no toca-fitas do Fusca
É possível ser feliz indo no estádio e tomar ceva com água da chuva

Ser feliz
lendo até às cinco dormindo até às onze
ver o mesmo filme em cinco prestações
deixando o café ferver
falando sozinho na rua
declamando poesia que não existe
jurando amor sem réplica
discutindo sem retórica
é possível

É possível
ao fazer peixinho de pedra n’água*
ao derramar erva de chimarrão na roupa
ao ouvir radinho a pilha sem fone
história de gaúcho velho
(que conta sempre diferente a mesma)
mentira de pedreiro
Ser feliz

É possível ser feliz enrolando a língua
quer seja ébrio e mal aparado
quer seja sóbrio (e bem acompanhado)

É possível ser feliz pegando um ônibus
e ir jogar taco na praça
lendo rimas simples
de um livro com traça
fazendo careta pra criança
do banco da frente
fingir-se de louco, banguela
ou demente

É possível
Sendo sensato
Ser, insanamente, feliz...

*meu recorde é 5


Leandro Coimbra

15.2.08

Quatro Segundos



Ele entrou no bar desanimado, aborrecido com o dia cosmopolita e abrasador, intolerantemente quente e inevitavelmente cosmopolita. Além de cacofônico.
A noite já havia chegado há tempo e não o tinha chamado. Ele foi porque quis. Ao chegar a sua casa, antes de sair, olhou para a lua – cheia – e sentiu vontade de compartilhar esse retrato gentil e singular que havia no céu com alguém, o qual entendesse o significado tímido de olhar para a lua e tentar decifrar seu desenho. É evidente que esse alguém, ainda que pronome indefinido e invariável, teria um gênero bastante definido, pois as mulheres sabem melhor do que qualquer ser vivo sobre a poética intenção de parar-se no desenho da lua cheia.
No entanto, na fracassada tentativa de encontrar uma parceria para olhar para o céu, decidiu entrar no bar e esperar por um amigo que chegaria dali um tempo. No bar, o mesmo desespero de todas as noites, mizacenes de homens e mulheres na tentativa animal de fazer sexo com um desconhecido e desejar que ele desapareça depois da cópula. Ou então, contratar um namoro sério cheio de promessas e decepções, com intermesos de fúria e dominação.
Era, portanto, mais uma noite em que muitas mulheres se fingiriam de desinteressadas e outros tantos homens simulariam interesse, até mesmo em coisas que nem sequer ouviram falar.
Escorou-se numa prateleira lateral e, ao avistar essa antipaisagem, teve ímpetos de ir embora. Porém, um anjo caído da noite, desses que vagam pelas colônias espirituais da nossa pequena metrópole, deve ter soprado para que o cara do som tocasse Paint in Black dos Stones. Ele permaneceu para ouvi-la e ficou batendo com os dedos da mão esquerda na prateleira, acompanhando aquela bateria que lhe parecia um ritual indígena, desses que libertam a alma. E isso o segurou ali.
A música acabou. Ele tornou-se a si para voltar a conjeturar sobre aquela balada do purgatório. Nem bem ensaiou um olhar de cento e oitenta graus no bar o anjo caído continuou o seu trabalho e fez com que tocasse The Doors, Breack on Trough. Ele pegou no braço da garçonete e pediu uma cerveja. Já que estava lá e o cara de som parecia estar inspirado, não custava nada. Entornou o primeiro copo de um trago só, como se fosse um copo d’água no primeiro quarto de uma maratona.
Quando começou a tocar Crosstown Traffic do Jimi Hendrix, ele rendeu-se e chegou a abrir um sorriso, talvez o anjo caído o tivesse feito cócegas. Parecia que aquela noite estava perdida entre tantas outras. Era como se fosse uma noite horizontal que o autorizaria a apreciar qualquer coisa além das máscaras.
Não teve mais tempo de deliberar sobre a espera pelo seu amigo, tampouco de rever a situação daquele cenário de teatro dos opressores, porque percebeu que pela porta de entrada algo aconteceu. Muitas coisas ocorrem na noite. E todo mundo quer acontecer. Mas o que houve naquele instante em que ele olhou distraidamente para a porta era novo, estranhamente novo, inesperadamente perturbador, a ponto de fazê-lo ajeitar a gola da sua camisa preta.
Ela simplesmente tinha algo entre o que era inexplicável e o que responderia às mais angustiantes dúvidas do mundo. Quando ela entrou, era como se o próprio coração dele quisesse secar um copo de conhaque. Ao entrar por aquela porta, ela fez com que ele decidisse abandonar todas as crenças, porque havia acabado de descobrir o verdadeiro sentido da existência, e nenhum guru o tinha alertado que era ela.
Ele viu ali, há alguns metros seus, a calça jeans mais impetuosa da história, cobrindo as mais libertinas proporções e simetrias de pernas e quadril que seus olhos tiveram o atrevimento de descobrir. Viu o cabelo recortado vermelho dela acariciando o próprio pescoço, e isso o fez respirar tão fundo que esteve perto de ficar zonzo.
Ela sorriu. Um sorriso tão empolgante e sincero que o fez ter a sensação de que agulhas o injetavam adrenalina e morfina ao mesmo tempo. Um sorriso que deixava mais doce a linha que sua franja desenhava sobre suas sobrancelhas. Toda ela, os olhos, a boca, a blusa branca justinha, toda ela, em suas proporções, era a coisa mais linda do mundo. Ele a contemplava arrebatado, extasiado, certo de que aquela noite poderia mudar sua vida.
Ela merecia tudo. Todos os carinhos que ele nunca tinha ousado fazer. Todas as poesias que ele nunca soube escrever. Toda a paz do universo. Uma prova de amor a cada minuto. Ela merecia tudo o que ele nunca achou que alguma mulher merecesse. Ela estava ali, há poucos metros seus, e era como se toda a noite celebrasse a presença dela. E a essas alturas, era como se saber da existência dela o bastasse.
E no instante em que ele abaixou os olhos para tomar um gole ela o percebeu. Ele então subiu os olhos novamente e os dois olhares se encontraram. Não se sabe se ela, por distração ou convicção, parou seus olhos nos dele por quatro segundos. O fato é que, até ela ser interrompida por uma amiga, ele viveu intensamente cada um deles. Cada segundo.
Sem saber ao certo o que fazer, mas na certeza do que pensar, pagou sua comanda e saiu do bar, sem que ninguém talvez se desse conta da sua abrupta ausência.
Caminhou até o carro com um sorriso choroso. Como se estivesse purificado.
Entrou no carro disposto a conviver pra sempre com a dúvida da conquista da mulher mais linda e doce do mundo.
Mas com a certeza de que viveria na eternidade daqueles quatro segundos.




31.1.08

Laranja II



Em São Leopoldo abriu há uns dias um bar chamado Embaixada do Rock, no lugar de um bar que já existia, o W Bar, que também era estúdio de gravação uma época. Por último, parece-me que era um bar digamos assim mais plural, que buscava a diversidade, se é que me entendem. Porém, o bar fechou, o que entristeceu muito meus amigos Fabiano Fischer, Totonho Lisboa, Joãozinho Gremista e o Negão Samuca, pessoal muito chegado nessa história de diversidade sexual e tal. Mas isso não é necessariamente um problema meu.
O fato é que na noite de sábado eu tinha um show de rock para ir, só que em outro bar, que fica na frente da prefeitura, eu gosto de rock sabe, faz a gente se sentir capaz de enlouquecer, de ser o que somos em vez de parecer. Só que no outro bar a banda que ia abrir a noite tinha o meu sobrinho como guitarrista, e eu quis vê-lo. Estacionei meu Fusca num lugar que ficasse estratégico para que eu fosse aos dois bares a pé, enfim, poupar o meio ambiente e a gasolina. Estacionei tranqüilo, sem ninguém para atrapalhar.
Cheguei à Embaixada do Rock. Cumprimentei algumas celebridades leopoldenses que estavam em frente ao bar, como o Negão Luis e o Ninja Trindade, que juntos somam cerca de uns trezentos metros quadrados de tatuagem. Inclusive algum desavisado passante poderia confundir aquela mobilização em frente ao boteco com um enterro, devido ao quase monopólio de roupas pretas. Percebi que se tratava mesmo de um evento Heavy Metal, que é uma variante do Rock em que os caras têm uma “puta” cara de mau, mas bebem Coca-Cola no Mack (tradicional boteco urderground leopoldense). Nada contra! Nada contra!
Após os salamaleques révi-metálicos de sempre, paguei o ingresso e entrei na Embaixada do Rock. Lá estava meu sobrinho, o virtuoso Éverton Santos, coçando violentamente o braço da guitarra. Fui me esgueirando entre cabeludos de preto e emos perdidos até a beirada do palco. Posicionei-me do lado esquerdo, bem na frente, que era onde estava meu sobrinho.
Fiquei ali. Curtindo o som. Vendo as cabeças balançarem. Tudo muito sincero, como tem que ser a vida. Embora eu estivesse bastante compenetrado no som da banda, senti que um olhar me buscava insistentemente. Incrível como os olhares nos puxam.
Se duvida, faz um teste. Fica olhando, obstinadamente, pra uma pessoa que esteja de lado e aposto como ela olhará, hora ou outra. E foi o que me aconteceu.
Olhei.
Estava bem do meu lado, oitenta centímetros por aí.
Era uma mocinha.
Percebeu que eu olhei e deu um sorrisinho sem mostrar os dentes. Mas eu não estava lá pra nada que não fosse ver a banda do meu sobrinho tocar e ir pro outro show.
Era uma mocinha um pouco mulata assim tipo cor de aipim liso.
Percebeu que eu olhei de novo e me deu um olhar de viés, ou como diria o Machado de Assis, um olhar de soslaio. Mas eu não estava ali pra isso, já estava para ir embora.
Era uma mocinha com um cabelo cacheado, lindo até.
Olhei de novo para ter certeza e ela como tinha certeza de que eu estava olhando decidiu olhar pro palco como que nem estava aí. Mas meu objetivo não era esse, e também olhei pro show, afinal, estava ali pra isso.
Sabe que reparei na boca, era bem carnudinha, aspirante a Penélope Cruz.
Percebeu que eu olhava pra boca dela e deu uma maldosa e desumana umedecida nos lábios. No entanto, eu não estava ali pra isso.
Tudo bem que ela tivesse um olho preto impiedoso, convicto do que queria, mas eu também sabia o que queria, e não era aquilo.
Ela devia ter, sendo otimista, uns dezoito aninhos. Do que falaríamos? Saberia ela sobre Jimi Hendrix, aquecimento global, Vinícius de Moraes, Aldous Huxley, Grêmio, Sete Maravilhas modernas, Red Hot Chilli Peppers, Miró? Ah! Está pensando o quê? Vai conversar sobre Guns N’ Roses, novela das oito, dá um tempo!
Acabou a apresentação e virei as costas sem dar assunto e voltei a me esgueirar entre os Black Shirts em direção à rua. Indignado!
Enquanto me esgueirava com dificuldade, constatei a razão daquele olhar malicioso.
Eu estava de camisa laranja!
O único na festa. E daí? Que se danasse!
Tive impulsos de voltar lá e dizer umas verdades a ela.
Saí porta afora para o outro bar.
Mais indignado!

29.1.08

Laranja I

Por volta de dez e meia da manhã acordei com a cantoria de um cara. Moro numa vila. E em vilas ouve-se caso haja alguém cantando na rua. Era uma música de um filme de dupla sertaneja, que dizia “no dia em que eu saí de casa minha mãe me disse: filho vem cá!”. A pessoa só sabia essa parte e o refrão. Tive de acordar mais cedo do que de costume para um cara de férias. Mas isso não me deixou de mau humor. O que quase me deixou de mau humor veio depois.
Antes mesmo dos asseios matinais, coloquei a água do chimarrão para esquentar. Coisa de velho. Algo que ainda estou longe de ser, ao menos na idade. Preparei o chimarrão e botei uma música para rodar, enfim, começar o dia com trilha sonora, que é uma coisa que gosto muito de fazer.
Abri, então, minhas duas basculantes, que dão de cara para a rua. Percebi um movimento de pessoas trabalhando e uns barulhos de roçadeiras. Dali uns dois minutos, os caras estavam em frente à minha casa tirando os capins que crescem nas calçadas. Acho isso uma coisa bacana. Cuidar da cidade. E eu ali tomando meu chimas e pá[*].
Só que me dei conta, enquanto servia mais uma cuia (que na verdade é a mesma), que na calçada aqui de casa cresce umas flores entre os vãos das lajotas. E as lajotas aqui de casa são aquelas lajes mesmo, iguais às das pedras de alicerce de casas. Então essas flores acham um vão entre os rejuntes e vão crescendo e não estão nem aí. Eu acho isso incrível.
Eu quero nascer e deu!
Parece até que vejo elas dizendo isso enquanto avistam o céu. Aliás, eu acho que a cor do céu, que é a cor preferida de dois terços dos gaúchos, estimula qualquer vegetal a nascer.
Só que tudo isso eu pensei em coisa de quatro segundos porque daí fui me dar conta de que os caras, que usavam roupas laranja inclusive, estavam ali na minha calçada tirando os capins e pelo visto certamente arrancariam as florezinhas da calçada sem tempo de pedido de clemência. Respire. Olhei pra rua pela basculante e o cara de roupa laranja, que é a cor das roupas dos garis, que a usam pra chamar atenção do trânsito, com a roçadeira a mil na minha calçada. E eu já preparei meu grito tipo “Oou!”.
Bah! Subestimei a sensibilidade do cara, não precisei gritar. Ele passou longe das flores com a roçaderia. No entanto, fiquei ali dê-lhe! chimas vendo o homem trabalhar e eu sem dor na consciência. Ele estava finalizando minha calçada e o trabalho dele era tirar os capins, danassem-se outros fragmentos que estivessem sobre ela, como pedrinhas ou pedacinhos de madeira, e eu ali, já sem saber por que, vendo-o trabalhar.
Pois estávamos tão compenetrados, ele no trabalho dele e eu no chimas (e no trabalho dele) que nem cogitei a hipótese de que uma pedrinha ou um pedacinho de madeira pudesse voar descontroladamente.
E voou!
Veio direto no meu olho esquerdo. Um pedacinho de madeira.
Não tenho mais o que dizer. Só que foi bem feito. Pois saiba que já sou bocaberta por natureza. Daí levar um mega-cisco-flash no olho por ser curioso, é muito azar. Eu dentro de casa. Não é justo. E o olho indiabradamente vermelho, gerando uma cachoeira de lágrimas.
Às onze e trinta as roçadeiras foram desligadas. Começou a cantoria de novo. A mesma música, os mesmos trechos, o mesmo cara. Fui à janela olhar o “tenor”: o mesmo indivíduo da roçadeira que passou pela minha calçada.
Pô! Ele me acordou pra isso?
Chorei até o meio dia.


[*] “Pá”, para os eruditos engessados ou para os de além fronteiras da Grande São Leopoldo, é uma expressão equivalente ao pronome demonstrativo “tal”, que, aqui, assume também a função de “Etc.”, abreviação do latim “Et Coetera”, que significa “E outras coisas”. Enfim, é mais ou menos isso.

Trilogia Laranja


Nas três crônicas a seguir, relatarei três fatos em que o Laranja me acometeu de inusitadas sensações. Entre a madrugada de domingo e a tarde de segunda. Nunca esquecendo, obviamente, dos libertários floreios artísticos.

18.9.07

QUASE BETÃO ou Ontem eu vi Kill Bill na tv com lembranças a Manuel Bandeira


(A Fonte - Marcel Duchamp)


Betão entrou já cambaleando no Bar do Tosco. O pessoal viu que tinha um cara meio saliente, mesmo por que ele chegou gritando:

- Essas mulher... tudo chave de cadeia!!

O pessoal que estava no bar ouvindo musiquinha de lancheria e bebendo ceva quente começou a ficar incomodado. Até os seguranças já se entreolhavam pensando no que fazer. E ele gritava:

- Mulher tem que parar de confundir grelo com grilhão!! Chega! Não eras!

Betão era um cara mulherengo. Às vezes era encontrado na rua, cansado, uns perguntavam pra ele:

- Daê?

-...

- Vai dar uma banda no Bar do Tosco hoje?

- Não.

- Bah! Capaz? Por quê?

- Corre o risco de eu comer alguém!

Nisso, ele realmente ia pra casa dormir e desistia de sair. Em outras ocasiões era comum vê-lo palestrando, bêbado:

- Olha cara! Se for feia eu não mato! Mas se eu achar morta eu como!

Mais ou menos assim procede o Betão na floresta urbana da noite leopoldense. Porém, ninguém entendia aquele apóstrofe imprevisto que adentrava o Tosco naquela noite agradável de quinta:

- Não tem mulher aqui que me mereça, e – olhando pro músico – pára de tocar esse tcheco tcheco xarope, não agüento mais ouvir Djavan nesse bar.

Tomou um chute na bunda, mas não se deu conta, tamanha a bebedeira.

Foi pro banheiro.

O ambiente vazio, ele se esbarrava nas paredes e na pia buscando se equilibrar. Quando de repente, mas daqueles repentes extremamente impetuosos, três mulheres interrompem sua micção com outro chute, dessa vez invejável, na bunda, dado pela maior delas, atleta do arremesso de martelo da Sogipa. Então, com a bunda partida em três pela fúria impiedosa do bico ultra fino daquele escarpã, urrou de dor como uma gazela e quase ele todo caiu pra dentro do mictório.

Quando se virou pra entender o que estava acontecendo, deparou-se com três mulheres furiosas, uma delas com uma espada japonesa comprada naquela loja de esoterismo perto do Bourbon, na Rua Primeiro de Março:

- Por que tu tá no banheiro das mulheres?

- Ãh?!

Tuff! Outro chute de escarpã, só que dessa vez ele estava de frente, ai!

- Heim!? Responde? Por que tu tá aqui? No banheiro feminino?:

- Mas...

Tuff! Outro, bah, doeu em mim.

Nisso ele quase não conseguia mais respirar e a que estava com a espada começou a mostrar a lâmina.

- Tu é tarado ou o quê? Agora tu vai ver?

E a lâmina da espada brilhava com a luz da lâmpada fluorescente.

As pessoas que estavam do lado de fora do banheiro conversavam calmas, flertavam, dançavam músicas que não gostavam, porém, um grito de desespero rompeu com o desespero da noite baladeira, era o Betão:

- Mas aqui tem mictório! Aqui tem mictório! Olha, o mict...!

Zzzim!!

Essa foi a noite em que o Betão chegou no Bar do Tosco, gritou, quase bebeu, quase cantou, quase dançou. Depois foi no banheiro e morreu degolado.




por Leandro Coimbra

1.8.07

Em Queda

daniel cunha





Acordei já era dez da manhã, terça-feira. Fui à janela ver coo estava o tempo. Voltei a dormir. Estava chovendo. Acordei novamente já perto do meio-dia e dei com o fim da chuva e um tímido raio de sol cortando o quarto escuro. Levantei nu e sem fome nenhuma. A única coisa que eu queria mesmo fazer era tomar muito café e ficar o dia sentado no sofá olhando a televisão desligada e o cachorro dormindo ao pé da estante. Levantar do sofá, ir até a cozinha. Pegar mais café. Talvez ligar a tv e ficar trocando de canal sem assistir a nenhum programa. Tomar cada vez mais café, era só o que eu queria fazer. Por volta de seis horas da tarde caminhei até a janela da sala para ver o tempo e ver também se Ádner, meu pequeno amigo com Síndrome de Down, andava por ali.

Ádner tinha sete anos e era o único com quem eu conversava nos últimos dois anos. Tinha esse tempo que eu já não convivia com ninguém. Aos cinqüenta anos já não havia em mim vontade de continuar sendo cínico com as pessoas. Acabei me enclausurando e vendo a inatividade me dominar, a sujeira tomar conta da casa. As coisas envelheceram rapidamente e foi como se me forçassem a acompanhá-las em seu mofo. A brutalidade das coisas da casa pareciam ter se transferido para mim, pois eu não sentia mais nada. Não sentia o gosto de nada. Medo de nada. Sentia muita mágoa. Sentia muita vontade de tomar café, o tempo todo. E raiva das pessoas, muita raiva. Somente com Ádner eu sentia vontade de conversar. Eu lhe dizia muitas coisas e ele não me respondia coisa alguma, eu jamais soube se ele me entendeu alguma vez. Eu lhe falava das couves que plantei no quintal e que nunca tinha vontade de comer. Eu lhe contava que estava havia horas querendo cortar aquele mato que tomava conta de todo meu pátio.

Ádner olhava para um lado e para o outro e falava coisas que eu não entendia. Por vezes ele até acabava me interrompendo. Eu gostava quando ele falava, pois achava que ele estava discordando de mim ou me dando uma bronca. Ele ficava zangado quando o dia estava nublado. Eu, quando fazia sol. Nunca nos entendíamos. De repente ele ia embora. Eu ficava ali. Ao pé da varanda do quintal, onde ele adorava ficar. Ele sempre entrava sem avisar, mas eu nunca me zanguei, mesmo quando ele me acordava cedo fazendo o meu cachorro sarnento latir. Quando o Ádner estava com o Pirata, o cachorro, eu lembrava que tinha que cuidar daquela sarna. Pensava de que maneira o cachorro poderia ter ficado surdo: se com algum fogo de artifício no ano novo, se com alguma bombinha atirada pelos moleques. Ádner ficava ali me esperando, todos os dias, ao pé da varanda caindo aos pedaços. Já havia até um buraco feito na cerca para ele entrar. Aquela cerca já sem tinta, já com os pregos enferrujados.

Passaram seis dias a partir daquela terça-feira em que acordei com vontade de tomar café, de olhar a tv desligada e o cachorro junto à estante. Tive um sonho desagradável. Tive um sonho daqueles que se sabe estar sonhando. Daqueles sonhos ruins em que se descobre estar sonhando. Em que se conforta quando se sabe estar sonhando ou se acorda e olha para o forro envernizado do teto do quarto. Não acordava mesmo tendo descoberto estar sonhando nem me confortava, tendo eu plena consciência de estar num sonho. Sonhava com aquele precipício que havia me perseguido a vida inteira. Aquele precipício em que eu caía e ao chegar ao chão dava com a cama e o forro envernizado do quarto escuro. Voltava a dormir. Sonhava noutro dia e outra vez caía do alto do precipício na cama. A mesma cor de terra e o mesmo chão invisível e a cama e o foro envernizado.

Naquela noite enxerguei o final da queda. Enxerguei meu reflexo no nada e vi meu rosto já velho com o medo que havia dois anos eu não sentia. Acordei assustado, como naqueles dois anos eu jamais havia estado. Fui até a varanda do quintal para contar para o Ádner do sonho e o quanto eu estava assustado com aquilo. No entanto, fiquei tremendamente surpreso quando dei, não com Ádner, mas com meu querido tio Augusto. Começamos a conversar interminavelmente e eu estava muito entusiasmado em vê-lo de novo. Era a única pessoa além do Ádner com quem eu conversava nesses últimos dois anos. Eu não parava de pensar no garoto em nenhum momento. O tio Augusto já havia me levado pra longe. Acordei nove horas e já eram sete da tarde e caminhávamos sem descansar e sem parar de conversar.

Eu estava muito feliz em estar com o tio Augusto. Eu sempre o estimei e já sentia muito a sua falta. Fazia seis anos que eu não o via. Desde que ele teve a sua última parada cardíaca.

A parada cardíaca fulminante.





por Leandro Coimbra, janeiro de 2002

29.4.07

Dirceu intrigado

Me impressiona cada vez mais o anseio dos pseudo-intelectuais em se "preocupar" com os problemas do mundo. O cara lê uma entrevista de um filósofo, lê o que o outro escreveu sobre o outro, assiste a documentários da moda. E, porra!, as vezes não bota nem aspas na fala.
- Ai, porque as coisas estão aqui mas podem não estar... e não-sei-quê...
- Ai, porque o existencialismo...coisarada...
Numa dessas o Negão apareceu na conversa e disse pra alguém:
- Ó tchê! Eu tô fora de ti na tua frente, mas posso existi dentro de ti por detrás.
- I! Sai fora! - Diz um pseudo-intelectual fazendo pose com o cigarro.
- Viu, tu já quer que eu saia de dentro de ti, mas eu ainda não entrei, se bem que posso ter entrado. Eu também vi o documentário.
- Não viaja! - Fala o pseudinho.
- Depende, o negócio é eu projetá!
- Ihhh!
- Me projetá pra longe desse papo trôxa! Eu também vi o outro documentário! - Diz o Negão, às gargalhadas, saindo da roda.
Mas, atualmente, nada me põe mais intrigado do que um conceito novo que ouvi numa roda de entorpecentes. Eram dois caras e uma estudante de qualquer coisa "social".
Foi na passada que eu ouvi ela dizer mais ou menos assim:
"... porque o problema do padrão está na questão do pós-indivíduo..."
Fiquei apavorado! Meu deus! Pensei, tu precisar ler mais, Dirceu, tu tá ficando pra trás!
Dali há uns três minutos já encontrei um amigo, o Basílio, muito lido em filosofia ocidental, também acadêmico, mas que, no entanto, guardava uma humildade oriental, verdadeira, de quem se apropria do conhecimento e não sai cuspindo verborragia por aí. Perguntei se o Basílio já tinha ouvido falar no tal do pós-indivíduo. Não, nem chance.
- Tu tá falando sério? - Me perguntou rindo.
- Sério tchê! Acabei de ouvir. - Respondi.
Demos uma longas risadas e saímos a beber e papear. Esquecemos do assunto, mas ao decorrer dos dias empreitamos na pesquisa.
Nada!
Ninguém fazia idéia.
Comecei as suposições e fiquei imaginando palestras de intelectuais, ou seja, caras que produzem mesmo, intelecuais às verda. Essa é do Mohamed von klinivlick:
"Porque o pós-indivíduo consiste na problemática do homem partido ao meio, seja lá por que infortúnio, qualquer acidente físico, ou seja, o cara não consegue viver mais sendo dois, não é mais individual, é duplo, e a ciência não dá conta disso ainda, ou tu és um só, ou não rola, como indivíduo tudo bem, mas pós indivíduo é morte, e aí entramos noutra área de estudo"
Também imaginei outra palestra, de Marta Futiliovich:
"O homem sai do padrão quando casa, deixa de ser individual e leva a vida a dois sem autonomia, não é mais, portanto, um indivíduo, está na fase do pós-indivíduo, aí reside o problema maior, a subordinação, isto é, homem pós-indivíduo passa de sujeito a objeto, ou continua sendo objeto."
Imaginei também um especialista de justiça palestrando sobre o cara depois de sofrer o assalto, o homem pós-indivíduo. Enfim.
Não cheguei a nenhuma conclusão, mas voltei a ter contanto com os "revolucionários" da condição humana:
- Então tá, vamos sair pra rua e mudar o mundo. - Disse uma moça. Ao que um dos caras respondeu.
- Tá, mas vamos só fechar esse beque antes tá!
Não entendo como o mundo segue sem solução, talvez ele seja muito individual.

31.3.07

Where’s my cu?

Coisa mais normal do mundo é intempérie, nunca vi. A Flórida vive se preparando pra um novo ciclone e nós mesmos já fomos contemplados com o furacãozito Catarina. Mas a coisa complica nesse mundo de jargões e frases feitas quando é no nosso que arde, no entanto, mais vale um cu na mão de cada um que dois na fralda geriátrica, separados, é óbvio.

Antes que o ledor me pergunte por que, já vou me adiantando.

Estava caminhando tranqüilo na Independência, sem saber pra onde ir, bordejando sem rumo rua acima. Encontrei um camarada, conhecido de conversas rápidas – o Marlon. Não sei que isso e não sei que pra lá “vamo no Adair tomá uma ceva?”, “vamo lá!”.


Fomos. Numa calma tricolor.

No boteco falamos mal da universidade, do pessoal da pedagogia, pedimos a segunda polar, e já estávamos encaminhando as soluções para a pesquisa acadêmica.

Começou umas pingoladas. Parou logo.

“A nuvem só deu uma cuspida”, falei.

Tchê! De repente se veio uma coisa úmida que não se sabe se era chuva ou uma aragem nervosa, vinha que nem parafuso, enviesada!

Um aguaçedo!

O boteco era gradeado e tal, e daí veio um vento meio que temperamental e começou a arrastar as mesa amarelinha (e as cadeira também) da skol e o vento assoviava meio irritado e parecia que dizia pra gente assim “LEVANTA VAGABUNDAGE!” e a gente se levantou pegando a polar e os copo e o vento assoviava um monte.

Meu! O boteco é numa encruzilhada e no oeste a gente pôde ver chegando um troço que era parecido com um baita redemoinho (ou redimuínhu), um negócio assustador, assustador mesmo, eu não sou de fazer alarde, mas foi coisa de uns dois segundos e aquela coisa passou levantando brasili que nem lôca, a luz piscava, ia e vinha, e o boteco já tava um aguaceiro cheio de folha de árvore e de mesa revirada e nessas eu tava com o cu tão apertado que eu acho que se fechou, “desanalizei-me”, fiquei me sentido como se tivesse com as nádegas grudadas uma na outra, virei um mononádego, pra tu tê noção do quanto foi punk o lance. Mas tu não sabe o que foi aquele troço vindo na nossa direção, meu coração eu quase cuspi e dei um chute. Um pilar de sustentação do boteco, isso a gente viu depois, foi deslocado do buraco. Passado o cagaço, o Marlon me olhou e disse “vamo tomá essa cerveja então”.

Isso era meio que uma celebração inconsciente da nova vida.

O caos instaurado, vimos uma das coisas mais surreais que vi na vida, um carro veio do lado oposto e dobrou à nossa esquerda, na roda esquerda dianteira ele arrastava uma bombona de água mineral de vinte litros vazia.

Demos um tempo e fomos caminhando Centro de São Leo adentro, contemplando o caos, coisa que pseudointelectuaiszinhos de merda adoram fazer, o que não é o nosso caso, é claro. Muitas árvores caídas e sacos com lixo na rua.

Porém, um símbolo do caos: um travesseiro branco numa encruzilhada.

Restabelecido, deu vontade de ir aos pés. Levei a mão esquerda à bunda e percebi que estava recomposto.


2.1.07

Férias na rede

...
..
.
pelo heterônimo Dirceu Inri

Estou entrando em recesso, tenho poucas coisas a fazer e já começo a cultivar hábitos de ociosos como bocejar de quinze em quinze segundos, friccionar quase ininterruptamente os bagos e mandar e-mails pros meus amigos INÚTEIS que lerão essa mensagem até o fim, apesar de eu já tê-los xingado – LÓQUIS e IMBECIS que são – porque não têm nada melhor pra fazer e porque isso os fará transpor pelo menos uns três minutos do dia. Alguns desses IDIOTAS DESOCUPADOS e que continuam lendo essa mensagem demorarão mais, por serem LERDOS, e daí podem perder uns quatro minutos e meio. O MENTECAPTO DESATENTO leva, entre prestar atenção na propaganda e ouvir o bralhou7 – eu queria escrever “barulho”, mas como também sou desatento...– do carro, uns nove minutos. Outro mais RETARDADO ainda leva uns cinco e o RETARDADO e ABOSTADO (termo empregado pelo meu amigo EQÜINO Negão) aquele que acha graça em tudo, pode levar até dez minutos e vinte segundos, se for RETARDADO, ABOSTADO e míope pode levar até treze minutos.
Claro que se for inteligente – apesar de VADIO – não continuará lendo esse desaforo. Porém, se o CABEÇUDO além de ser inteligente for curioso é possível que ele leia até o final, mas com a intenção maior de analisar psicologicamente e discursivamente a minha mensagem. Mas se além de inteligente e curioso o cara – BUNDA-MOLE – for orgulhoso, ele entrará numa forte crise, ficará nervoso, tomará um calmante e esquentará um café-preto, enquanto toma o café tentará, eu disse “tentará” refletir sobre a sua crise e buscará, incansavelmente, uma solução: como pessoa inteligente ele deveria parar de ler – o OTÁRIO – afinal de contas, um sujeito perspicaz que se prese como o PALERMA em questão não pode, racionalmente, procurar ofensas, pode no máximo aturar alguns gritos, só que sem reagir – pois um homem inteligente não reage a ofensas. Mas como é curioso, ele precisa saber onde a coisa toda vai acabar, afinal é pra ele que está sendo endereçado o desaforo, precisa saber do que vai ser chamado, pensar no que fez o locutor o chamar de LÓQUI ou “PÊNIS-NO-ORIFÍCIO-CORRUGADO”, enfim. Só que o orgulhoso jamais aceitaria conceder minutos de leitura a uma mensagem que se encarregue de o ofender, ainda mais gratuitamente. Só nesse processo, então, para ler esse e-mail ele gastaria, talvez, uma manhã inteira, e isso resulta em boas cinco horas.
Essa é a meta social da coisa, entendem? ESTÚPIDOS!
É para fazer passar o tempo dos ociosos e entediados VAGABUNDOS do ciberespaço que escrevo essa mensagem. E esse é o meu público alvo potencial: os inteligentes, curiosos e orgulhosos. Acho até que eu podia ser explorado por uma empresa dessas que oferecem suporte – acho que são provedores – para, através de um mapeamento prévio (não me pergunte como) de usuários com esse perfil, enviar mensagens “ciberxingantes” para esses indivíduos e fazê-los se manterem mais tempo na rede.
Acabou a crônica, quando tempo você demorou pra lê-la?
BOÇAL!

24.12.06

pão de queijo



Ele vinha de modo protocolar ao mercado, todos os dias. Buscava o lanche do fim do dia como a maioria dos solteiros. Coisas sintéticas, muito açúcar, pouca fibra. Ela aguardava do outro lado do balcão da padaria. Atendia aos comprantes de supérfluos com cansaço e vontade de ir embora. Agradecia com o sorriso exigido pelo setor de rh. Pensava nas contas. Seguia sorrindo. Um sorriso cortante. Um corte em si mesmo.

Da última vez que entrou no mercado, Ele passou reto pela senhora da limpeza. Ela que é doce e frágil. Baixa a cabeça e contém a varrição. Ele passa indiferente à senhora e ao corredor de frutas. Pede um sonho de doce de leite, Ela o atende com um sorriso trêmulo, Ele olha para Ela com esforço. Ela agradece um tanto tênue, Ele encolhe os lábios e mexe a sobrancelha antes de das as costas a Ela. Ele vai, Ela fica. Ele pega um guaraná. É mediano, pardo, olho escuro, usa mochila nas costas magras. Põe os óculos no bolso para ver alguma coisa além do porta da rua, depois de pagar a compra. Se havia um caixa ali não se viu. Se há pessoas no seu caminho são vultos. E com vultos não se fala.

Toma a rua com pressa e chega ao apartamento. Varreu a rua arrastando os pés e o policial da escola, o gari e o porteiro com a indiferença.

Vultos!

Em casa a guaraná e o sonho de doce de leite tem vida efêmera. As únicas coisas que o fazem sentir vontade de estar acordado cessam. Às sete da tarde a garrafa vazia e o guardanapo do sonho de doce de leite, ambos com todo o seu açúcar, nem às moscas recebem como companhia.
Ele adormece no sofá da sala.


Ela baterá o cartão dali a duas horas.

Fim da tarde do dia seguinte. Ele entra no mercado nervoso como quem se esquiva de abelhas e maricás. Escolhe um litro de iogurte. Respira fundo. Encolhe os lábios e esfrega a testa com a mão direita. Olha para a padaria e vai até Ela. Posta-se na fila numa ansiedade juvenil, como uma criança que tem medo de não ganhar o doce. Olha pra Ela, que mexe no cabelo, olhos castanhos, baixa, cabelos escuros crespos, magra, limpa o suor, sorri um sorriso seu. Ele pede três pães de queijo, Ela escolhe os melhores, pesa, entrega. Agradece com um carinho dela. Ele sorri lacrimejante e deseja um “bom final de tarde pra ti” de coração. Ele agradece “igualmente”, olha fixa, com o lábio superior suspenso. Ele coça a nuca com o dedo indicador, aperta os lábios, balança com timidez a cabeça, torna-se a si, introversa-se e segue ao caixa.


Paga as compras. Vê a caixa, diz um “de nada” quase a olhando nos olhos. Segue pra rua, Vê as pessoas, Vê o policial da escola, Vê o gari, diz um “olá” pro porteiro, que corresponde e comenta d“esse calor?”, Ele quase diz que ‘parece que tá pra chover esse fim-de-semana’. Sobe pro ap. Serve o iogurte de frutas. Senta-se calmo à mesa. Pega o pão de queijo, contempla o pão de queijo como se A contemplasse. Morde o pão de queijo em paz, quase fechando os olhos. Enquanto mastiga o pão sente-se vivo, sorri de boca cheia, toma um gole do iogurte, deixa um pão pra mais tarde, hoje não vai conseguir dormir cedo.

Entreteve-se até altas horas, ouviu música, limpou as roupas, os sapatos, passou as camisetas de algodão e o aspirador nas três peças da casa. Tomou banho, ouviu jazz, sorriu sozinho, leu poesia, dormiu de janela aberta.


Acabou a outra tarde, entrou no mercado, mais um lanche do fim de dia, de roupa passada, tênis limpo, barba bem feita, alma asseada, pensamento perfumado. Procurou por Ela no outro lado do balcão, lá uma loira atrapalhada, um crachá sem nome: em treinamento. Ele perde a fome, vira as costas, percorre os setores, ouve uns “posso ajudá-lo” exigidos pelo rh. Fecha os olhos, aperta-os, abre-os novamente, mira a porta da rua, não vê a caixa, não vê as pessoas, o policial da escola, o gari; o porteiro acena-lhe curioso ao ver passar distraído em frente ao prédio, como quem não sabe pra onde vai...

Por Leandro Coimbra

16.11.06

O gago e o masoquista

arte de ninja trindade

Desde pequeno, Duda tinha medo de se afogar. Ficava atônito ao ver água sem enxergar o fundo. Aos quatro anos, tanque de lavar roupa era oceano; aos dez, molhar o rosto de manhã cedo era penitência.

O outro, Fabiano, não. Não só era profundo freqüentador do balneário Micose, na vila São Borja, em São Leo, como também não ligava nem pra chuva de granizo. Inclusive, curiosamente, gostava.

Duda levou um cagaço quando era pequeno, numa poça d’água de uma centímetro de profundidade. Fizeram de conta que iriam atirá-lo nela. Desde então, tamanho o cagaço, ficou completamente gago.

Fabiano já é mais fácil de explicar. O fato é que, além de adorar ficar na chuva de granizo, adorava injeção, ficar ajoelhado no milho. Picada de marimbondo então? Nem se fala, ama. Pimenta na ponta da língua, ortiga. Adorava tudo. Mas, quando ele completou doze, foram embora para um apartamento em Porto Alegre e adeus ortigas, marimbondos, chuva de granizo no quintal e quando eram férias, adeus ajoelhar-se no milho. Só quando ficava doente para ter injeção. Sobrava a pimenta na ponta da língua, mas isso já não bastava, Fabiano queria mais. E querendo mais, um dia quebrou, propositadamente, uma xícara do jogo de chá chinês de sua mãe. Ela nem pensou na conseqüência e lhe desferiu tapas na bunda, chineladas, varadas... Fabiano apanhara tanto que, de tamanho prazer, atacou a carteira de cigarros de sua mãe e fumou um Ritz longo escondido e pensando... “o jogo de chás ainda tem cinco xícaras, talvez se eu quebrar três eu ganhe uma dose mais forte e fico uma semana sob efeito... talvez quatro, não, quatro pode me dar uma overdose e daí já vou longe demais”.

Era um mundo novo que lhe nascia, um mundo de prazer e subversão batia a sua porta, e a sua cara, com muita força. Pensava em quantos copos de cristal, uma mão na bunda da garota mais bonita da escola poderia lhe render ótimos arranhões, sem falar na ira do namoradinho, da reguada nas mãos e, o que era melhor, sua mãe.

Só que as coisas tomaram uma certa gravidade. Fabiano, que já tinha vinte e quatro anos, descobrira o sadomasoquismo, e isso passou a envergonhar sua família. Então o encaminharam para um psicanalista, ele foi, lá se encontrou, e olha como o destino é um go-goz-zzzzzador, com Duda. Estava em fase de recuperação. (nota do narrador: Por que um psicanalista? Porque sim, sei lá, estava com preguiça de pesquisar como um psicanalista pode interferir na gagueira, mas pode, pronto!)

Duda estava na sala de espera, fumando. Fabiano entrou com os dois olhos roxos da última tunda da polícia, quase sem enxergar. Tateou uma revista, não sei pra que, e, com dificuldade de encontrar, foi ajudado por Duda que distraidamente, com o cigarro na mão, queimou-o e irritado ainda falou pra Fabiano ter mais cu-cucuii-iiii-dado!! Pronto. Era amor à primeira vista, além de fazê-lo sentir dor Duda ainda xingou Fabiano.

Se viram ainda outras vezes na sala de espera, em dinâmicas de grupo, em reuniões. Só que, ao perceber a amizade exagerada dos dois, o analista avisou a família e alertou: “agora, que se quiserem que eu trate do homossexualismo também, é mais caro!”

Não, as famílias não admitiriam ter que pagar mais ainda para o médico e resolveram cuidar sozinhos da questão. O pai de Fabiano foi bem incisivo: “não quero saber de beijinho na minha frente, bichice tudo bem, mas frescura eu não tolero, e é som fim de semana”.

Curaram-se.

Duda e Fabiano andavam felizes. E o calor aumentava cada vez mais. Caminhavam na praça perto da casa de Duda quando de repente Fabiano viu a poça d’agua da quadra de futebol e bolita. Adivinhem! Fabiano, curado do masoquismo e possuído pelo espírito de liberdade pós-moderno correu freneticamente em direção à poça. Duda estremeceu, branqueou, suas pernas amoleceram, seu coração disparara, a garganta apertada. Fabiano, que agora era Bibinho, se aproximava cada vez mais da poça, na certa pensando em seus pontos no Balneário Micose, corria para a poça de dois centímetros de profundidade. O desespero de Duda fazia correr lágrimas de seus olhos e ele não conseguia gritar, “na...na...na...” ao eu o Bibinho respondia correndo “eu não quero nadar, só vou me refrescar um pouquinho”.

Em vão Duda tentava, e a poça se aproximava. Lembrou de seu susto quando criança e agora estava ali, gago de novo. Tentou gritar uma última vez, em vão... Bibinho se atirou... não saltara mais como antigamente... deu um barrigaço... gritou... gritou de novo... contorcia-se como uma minhoca recém desenterrada... gritava mais.

Duda se aproximou, olhou nos olhos de Bibinho... olhou outra vez... o prazer nascera nos olhos de Fabiano novamente.

Enquanto Duda chamava o socorro, as pessoas notaram que ele, virilmente, cuspiu no chão e coçou o saco.

Nunca mais viram os dois juntos.







por Leandro Coimbra


4.10.06

nortenã

estamos na linha divisória da nossa geração. a ascenção da esquerda latino-americana é inversamente proporcinal à nossa força de luta. o império norte-americano prestes a implodir-se... tanto e tanto... monocultura, deserto verde. amazônia sob planejamento inglês de privatização...

a norteña quebrada por leopoldenses em solo gravataiense mostra a nossa desatenção. estamos frágeis e desatentos...

"alguma coisa precisa ser feita", vou começar cortando os jargões idiotas (como esse) da minha vida...

12.9.06

idiografia

Sou O cara.
Mil vulgos.
Multifacetado.
Inconfiável.
Tudo já era.
Tudo passou.
"Tudo" deixou de ser pronome indefinido e se tornou sinônimo de MERDA.
Tudo passou!
Tudo ficou pra trás!
Tudo explodiu na cabeça de quem me deu o estopim!

Agora é só Bossa
Só Samba
Só Balanço debochado
Na cara da tristeza: essa vadia!
Agora é só amor mambembe
Na calçada
No balcão
Na sarjeta da vida
É essa fulana que amo
Doido
Amo a vida como o bêbado a sarjeta
Não a quero às vezes
Mas é sempre nela que me encerro
Na certeza de que

A morte é tudo!

31.7.06

Diário Metropolitano I

Cheguei a Gravataí sendo acolhido por um choque-térmico. Saí de dentro do calor humano do TM3 e desembarquei na praça central da cidade, num frio de rachar beiços. Domingo, quatro e quinze.
Era o encontro de um grupo literário informal – tudo que é informal é melhor – e tive que esperar pelo Alemão, na tal praça. Pelo celular ele me disse “procura um lugar pra tomar uma ceva porque eu vou demorar um pouquinho, tem um quiosque na tua esquerda, tê senta lá e me espera”.
Tive vontade de ir ao banheiro. Avistei o banheiro público, um problema: não dizia qual era pra quem, homem e mulher. Um era pintado de azul e o outro de vermelho. Então esperei chegar alguém. Vieram duas senhoras, entraram no vermelho, ótimo.
Sentei num banco da praça, lendo Boal e lagarteando ao sol gravataiense, era beiço que se abria e sol que tentava fritar, mas o forno tava em fogo baixo, comecei a fritar era de frio mesmo, senti foi um vermelhão na cara e um tímido calor no meu “BL” comprado em Tramandaí a quinze pilas.
No som do quiosque tocava uma música gaudéria daquelas que o cara canta com a boca cheia – de carne gorda e de bairrismo – “Eu sou gaúcho porque quero e gaúcho é macho e não sei mais o quê”, a letra trazia implícita a frase “tirando gaúcho o resto tudo é puto”, resumindo. Não consegui mais ler. O dono do boteco de repente acho que me viu sentado – cabeludo, barbudo, de brinco, “BL”, meio sessentista – tirou a grosseria do som e botou um Creedence, aquele único disco que parece que tem no Brasil. Tava tocando “rei tiunai” e ele me olhava e balançava como quem diz “chega aí e toma uma ceva, não vê que eu sou legal e que o meu boteco tá vazio”?
Chegou o Alemão. Atravessei a rua, subi no carro. Entre eu e o Alemão uma amiga sua. Daí pra frente só ouvi vozes, música clássica e os murmúrios de um longa tristeza. Só via quadros impressionistas: um foco central bem definido, o resto só difusão.

24.7.06

De quem é essa terra?

Fragmento do espetáculo Comédia sem Graça, do Teatro Velho do Saco.


Latifundiário

O que que tu quer aqui?

Retirante

Lhe devo nada não!

Latifundiário

Não me deve prá lá! Aqui me deve sim! Aqui é meu canto!

Retirante

Teu canto qual nada! Quem foi que falou que esse canto é teu?!

Latifundiário

Quem foi que falou que não é?

Retirante

Não sei. Quem te falou que é?

Latifundiário

Não interessa!

Retirante

Interessa sim! Prum canto ser de alguém tem que um vir e dizer que é. Se não, não é!

Latifundiário

Está certo. Este canto me foi concedido pelo senhor que veio de caravela, com muita churumela, não quis nem saber, botou pra correr... um monte de galego que andava pelado na maior vergonheira, foi logo dizendo: pode vir pra cá que isso aqui agora é de deus, isso aqui a gora é teu. E eu tô aqui...

Retirante

Cadê o documento?

Latifundiário


Não tem!

Retirante

Como é que não tem?

Latifundiário

Não tendo!

Retirante

Então não vale!

Latifundiário

Vale sim!

Retirante

Como é que vale!

Latifundiário

Não interessa!

Retirante

Interessa sim! Ninguém pode dar nada de boca, sem assinar e autenticar.

Latifundiário

Pode sim!

Retirante

Como é que pode?

Latifundiário

O homem disse que não precisava!

Retirante

Que homem?

Latifundiário


O que deu!

Retirante

Mas quem que deu?

Latifundiário

Já te falei!

Retirante

Mas donde tá o homem?

Latifundiário

Não interessa!

Retirante

Interessa sim! Prum homem dar um canto ele tem que ter um outro canto que é dele!

Latifundiário

Mas esse não tinha, foi morar na rua!

Retirante

Por que um homem ia querer morar na rua?

Latifundiário

Não interessa!

Retirante

Interessa sim! Ninguém quer ser mendigo.

Latifundiário

É que esse é louco, pensa que é São Francisco de Assis.

Retirante

Mas louco não pode ser dono de canto! Louco tem que te procurador!

Latifundiário

Esse tem!

Retirante

Quem é?

Latifundiário


Não interessa!

Retirante


Interessa sim. Procurador de louco é gente que se tem que conhecer!

Latifundiário

Foi embora!

Retirante

Pra onde?

Latifundiário

Com o louco.

Retirante

Pra onde?!

Latifundiário

Não sei! Louco não sabe onde vai!

Retirante

Mas e o procurador levou o documento?

Latifundiário

Mas não tem documento!

Retirante

Quem disse?

Latifundiário

O homem!

Retirante

Que homem?

Latifundiário

O que me deu o canto!

Retirante

O dono do canto ou o procurador do dono do canto?

Latifundiário

Não interessa!

Retirante

Interessa sim! (...)




Leandro Coimbra

23.6.06

Micrônica II

Notícia


encontrada a ossada do campeão mundial de esconde-esconde de 1968





.

14.6.06

Solidão em Nanquim




Há de travar-se essa batalha vã
Do dia de hoje contra o de amanhã” *



Caro amigo,

O personagem Jack, do filme Clube da Luta, fala para Tyler que em suas viagens de avião conhece muitos amigos descartáveis. É evidente que tu o entendes. Tenho a incômoda impressão de que vivo algo parecido. Receio isso. Devo dizer-te, antes, que escrevo isso bêbado. Ouvindo Chopin, sozinho, bebendo vinho, cumprindo a heróica façanha de olhar pra tv desligada, ou seja, numa solidão doce, androfóbica, tênue, da qual só me desatarei forçado. E isso será ao raiar do dia, quando me trepidar o som exasperado do despertador. Na hora do trabalho.

Pois bem, caro amigo, ou conhecido, que seja, minha solidão agora é tão completa que seria um desperdício não compartilhá-la com alguém. Minha solidão agora é uma arte perfeita, capaz de conglomerar todas as vanguardas artísticas de que se tem conhecimento. Estou rodeado de meus livros, ouvindo o piano de Chopin, apreciando quadros de Jader Santini, usando meias soquete, secando uma garrafa de vinho tinto. Olhando para Dostoiévski e protelando sua leitura enquanto sapos coaxam no banhado ao lado, olho para um Victor Hugo escrito em francês e pouco me importo se não posso lê-lo.

A liberdade desse momento, quando se encerra Chopin e começa “Neves de Papel” (ela mesma), merecia uma morte. Uma bela morte. Num momento conveniente: um ápice. Quando se está só e sem definição sentimental. Não há triste, risonho, feliz, exultante, descontente, nada, furioso, orgulhoso... Sou só seu. Em estado zero.

Entendes? Acho que sim. Agora toca “Noturno”. Essa é minha “noite sumida”, minha “rua partida”. O vinho desce como vinho. Não como fuga, como costuma ser; ou como exibição, tal qual se faz muitas vezes. Desce como vinho. Solidão doce. Ausência de nostalgia. Solidão redentora.


Leandro
3 de junho de 2006. 1 da manhã.




*Augusto dos Anjos

10.5.06

Poema Parnasiano ou Tentei compôr um soneto ou Olavo Bilac, não enche!

"É lindo ver o sol cair no prepúcio da tarde"
Angel Sanchez

Natureza viva

"Boco! (griteis) pagar bolitas! Lóqui!
Perdeste o Bugigão"! E vos chameis, no canto,
Que, para pagá-las, lhe dando um tóqui
Abro as braguilhas, entesado um tanto"

"E pinicamos toda a tarde aos "ais"
Na prática sem nada fusilânime! Então
A vulva cuida que não desanime em vão
Já que pois, bradam - putz ! - nossos pais,"

"Amoleces agora? Retesado amigo!
Que coisa é essa que te interferes?
Assolas logo um tanto o me'umbigo!"

"E eu vos arranhei as costas no capim
Ai! Sou o único que vos come, vos feres
Só perderas - oh!- bolitas pra mim!"

Por Leandro Coimbra

3.4.06

A poesia não vale a pena, disse o poeta.




O último poeta a tentar... e a conseguir (Causo Real)

Leandro Coimbra

O poeta Fabrício Carpinejar é bem conhecido pela célula intelectual gaúcha, talvez por toda a brasileira, e relativamente popular entre os pseudointelectuais leopoldenses. Premiadíssimo. Filho de um acadêmico da muito importante, respeitada e locupletada ABL. Que coisa! Um grande orgulho pra qualquer leopoldense.
Henrique Coimbra é outra figura importante da cidade, pelo menos pra minha família. O guri tem dezesseis. Tá no ensino médio. Leu o Ser e o Nada de Sartre, manja de filosofia grega o essencial e anda estudando Hume. Dá oficinas de filosofia pra criançada numa ONG aqui na Cohab Duque, onde moramos.
Essa figura escreveu uns três romances a mão naqueles cadernos que se ganha do governo, além de um número infindável de poemas, dentre os quais destaco meus versos preferidos “A realidade é divina/A realidade é cocaína/O equilíbrio da água/É o equilíbrio sem mágoa” – esse aos 13 anos.
Eis que se encontraram ambos na porta do nosso ostentoso xópin. Digo, Henrique, o jovem anônimo, encontrou Carpinejar, o Notório. Num lapso de tietagem que não é peculiar ao meu querido sobrinho, aproximou-se ele do escritor, talvez por não se tratar apenas de um artista global ou de um jogador de futebol – também global – mas por se tratar, no entanto, de um Grande Poeta Brasileiro.
Henrique, então, falou-lhe humildemente de seus livros e seus projetos, inspirado pelo conterrâneo ilustre que o ouvia. Porém, Carpinejar sentenciou ao guri que não investisse nisso, não vale a pena. Ele que, escolhido por deus, sabe-se lá, editou livros e por eles foi casualmente premiado. Ele que é filho de Carlos Nejar, sentenciou a fim dos sonhos ao pequeno poeta do Morro do Aipim.
Que bom! Deve Ter pensado o Henrique. Que bom! Devemos pensar nós que habitamos esse campo de artistas soltos. Que bom que temos esse ilustre para nos abrir os olhos. Que bom que o Henrique foi convidado a deixar de sonhar à noite pra criar ao dia. Que ótimo que as portas da poesia se fecharam, então, para os novos. Que bom que temos o Carpinejar que investiu e conseguiu. Que bom que a lógica da arte é o retorno financeiro. Que bom que o Henrique não aceita convites facilmente.

23.3.06

Transmutação


Laço de ódio

Essa abelha, puta!, não me deixa tomar meu café.






"

2.3.06

A menor crônica do mundo

A vez que o pedreiro Lindomar correu pra pegar o ônibus

Morreu. Logo existe!

16.2.06

Lagarteando no Teclado

NA FILA DO POSTO

(narração levemente inspirada em João Ubaldo Ribeiro em O Santo que não acreditava em Deus e Sarbento Getúlio)

Dia desses fui no posto de saúde marcar consulta. É necessário retirar uma senha. O serviço é público e o número de atendimentos é limitado – quinze. Daí que duas horas é a média de tempo que se espera na fila. É claro que nesse caso foi menos doloroso porque as fichas são distribuídas às 14h e então não é preciso dormir na fila por exemplo e posto que na vila, que é onde moro no caso, não são muitas as pessoas que adoecem nessa época do ano, é outono, não temos uma grande procura pelo médico. Pra ajudar o tempo a correr eu levo pra fila um jornal da cidade pra ler as notícias e ficar olhando as tabelas de classificação dos campeonatos, no meu caso eu tenho que olhar duas tabelas porque o meu time está jogando num divisão alternativa, continuo lendo e começo a rir das charges e das tiras e dos erros ortográficos, daí eu penso que jornal tinha que ter iso nove mil também e passo a ler um livro de conto que é uma coisa boa de se ler numa fila porque as histórias são mais rápidas e não tem problema em se parar de ler de repente caso a mulher das fichas chegue com aquela cara de quem parece que está fazendo um favor pra gente. Mas infelizmente nem todo mundo lê.

É claro que ficar numa fila é chato e então quem tem celular fica mexendo nele e ouvindo as musiquinhas, o que é uma coisa inconveniente e mais ainda quando o celular da pessoa não tem toque polifônico, que é como se fosse mais ou menos o som de uma caixinha de abelha, só que estéreo. Então a pessoa fica mexendo no celular e acha que a gente anda muito interessado nos barulhos que ele faz, ainda mais quando a pessoa fica jogando, o que é uma coisa que eu também faço quando jogo cobrinha, meu recorde é 1890, só que tiro os sons do jogo e do teclado. Está se vendo que sei passar o tempo na fila do médico, sobretudo sendo numa vila onde as pessoas mais velhas não me conhecem e as mais novas me acham uma pessoa digamos que meio metida, daí acontece que não puxo causo com ninguém e ninguém puxa comigo, mas puxam entre eles, principalmente os mais velhos que são pessoas que gostam muito de conversar,ou de falar, enfim...

Sendo que o meu dedo começa a doer de tanto jogar eu tento tornar a ler só que não adianta porque é impossível não prestar atenção na conversa do outros:

- Ô seu Percival! Como é que tá!

- Tô bem guria, esse friozinho me deu uns garrotio nos pulmão, vô te que fazê uns tratamento pro fígado, tô sem recebê a aposentadoria faz dois mês. No mais tô tranqüilo. E tu guria?

- Tô bem seu Percival, vim tirá uma ficha pro Indiomar que se pisô coisando uns troço lá em casa.

- Mas que baaahh...!

- Vô tê que i no centro ainda pra pagá a Baratêra e i lá na Semae vê porcaudiquê que a merda da conta dá água veio trinta pila esse mês.

- Tu viu que morreu a cunhada da prima do seu Firmino?

- Senhor vê seu Percival, onti uns home foro lá em casa cortá a luz botamo a boca e os home se foro correndo pro caminhão mais eu segurei o Indiomar pra não quebra os fiadasputa a pau!

- Esses dia nós também, eu e a Cléria fomo fazê compra e a guria disse que a erva tava dois e quarenta mais na pratilêra tava dois i vinte daí eu ela não cobro o mais caro, eu vi na tv que não pode, isso é uma falta de poca vergonha que...

- Não é seu Percival, o negócio que o pessoal da globo fica dando os futuro das novela e tem gente que não gosta eu acho que é legal porque daí se o Tião for morrê a gente diz que não qué, daí ele não morre.

- Falando nisso tu ta morando aonde? Lá perto do seu Jacenir ainda?

- Não seu Percival! Tô lá na Figuêra!

- Lá na Figuêra?

- Isso!

- Mas aonde lá na Figuêra?... É na Figuêra né?

- Lá na Figuêra mesmo seu Percival!

- Ah bom!

- Sabe a Figuêra lá né seu Percival?

- Sei.

- É lá na Figuêra!

- Ah tá!

- Tamu lá!

- Mas é lá na Figuêra então? Tu vê.

- É! A gente ta lá.

Dão um tempo. Ouvem um carro que passa . Os outros conversam... Os dois retornam a conversar:

- Mas tu tá ali na Figuêra ali? – aponta em direção ao sol um pouco pra esquerda e meio pra cima.

- Isso! Na Figuêra lá em cima.

- Mas é lá na Figuêra então?

- Lá mesmo! Um pouco antes.

- Ah... um pouco antes?

- Isso.

- Mas onde é que é lá onde que tu mora?

- Na Figuêra!

- Ah...! Um pouco antes né? Tu disse.

- É! Eu moro bem na Figuêra. Mas só que tem que não i até lá, é um pouco antes, sabe a casa da Dona Romilda?

- Ah...

- Isso! Perto da Metilde

- Ah... a Metilde mulher do Celonei?

- Isso! Irmão do seu Angiosmar.

- Angiosmar é aquele que vende galo de rinha né?

- Acho que é. Eu sei que ele tava de servente do Celso.

- Ah... o Celso.

- É! Baita dum bebum.

- Sei! Tu sabe que esses dia eu vi ele caído na frente do boteco da Leonir? Coitado do guri.

- Mas é....! ele anda assim agora.

- Mas o irmão dele tá bem né?

- Quem? Uuuu...?

- Polsério!

- Mas é um homi bunito e Cuma mulher tão esquisita, o que que qué da vida esse homem?

- Vai vê ela não passa o dia falando da vida dos ôtro!

- Que que é seu Percival?

- Ó! Chegô a mulher das ficha !

Leandro Coimbra

15.2.06

Entrei


As farpas serão má vindas...

... no entanto não espero outra coisa sem a qual eu me sinta sempre estimulado a ser mais, nem que seja mais um... anônimo nos Brejos da Cruz da vida.

Farpa!!!!!!!!!