CRÔNICA CRUA - Inverdades Plausíveis e Causos Mesoverídicos - Agora, em Folhetim
O "Lamento Sertanejo" é uma linda canção de Dominguinhos e Gilberto Gil. Tão linda que me fez sair do ostracismo literário (o que não chega a ser motivo de festa pra ninguém). Na música o eu lírico fala que "Eu quase que não consigo/Ficar na cidade sem viver contrariado". Ou seja, há uma faceta de "Lamento Urbano" aí, por que não. É nessa que nós vamos, aos lamentos urbanos leopoldenses...
11.8.11
20.7.11
Lamento Urbano - Um Folhetim Zim - Parte 4
Outro dia, no trajeto que me levava dessa escola pra casa, numa rua de paralelepípedo (um dos ‘les’ aqui já foi banido pelo povo, inclusive), dois senhores pedalavam lentamente suas barrafortes. Pareciam pedreiros e falavam sobre aulas que estavam frequentando. Pelo tom de voz, eu poderia ter certeza de que um deles não parecia nada contente com o professor de matemática:
- É difícil a explicação dele! O cara fala coisa com coisa!
Parece mesmo que falar coisa com coisa confunde. Talvez elas se sobreponham. O melhor é não falar coisa com coisa. Falar coisa com troço, talvez.
Mas o meu longo caminho para essa escola ainda tinha mais a me reservar, nessa que é uma verdadeira exultação lexical. Eu tomava um ônibus às 5h30min. da manhã. Desde que eu conseguisse um lugar mais à frente, conseguia dormir mais um pouco. Do contrário, teria de sentar perto do cobrador, que era um misto de menestrel com comentarista de rádio, e conversava com todos no fundo do ônibus. Todos.
O cobrador tinha ao seu lado, nesse tempo, um cofre cilíndrico para guardar as fichas de vale-transporte e notas de dinheiro de valor mais alto. Numa certa manhã, entrei, sentei perto dele e a discussão ia acalorada, monologamente acalorada, porque o ônibus que estavam usando nesse dia trazia o cofre entre as pernas do cobrador. Por isso, ele não estava, digamos, muito satisfeito:
- Onde é que já se viu colocar esse troço aqui! Falta de consenso!
Quase não acreditei no que ele disse. Fiquei o dia inteiro com dor nas mandíbulas por ter segurado a gargalhada. Pensei nos responsáveis por colocar cofres em ônibus discutindo a questão. Nesse ônibus, especificamente nesse ônibus, onde iria o cofre? Um deles polemizaria e diria que devia ser do lado direito. Mas sempre é no esquerdo! Protestaria outro. Iriam consultar o Estatuto Brasileiro de Colocação de Cofres Cilíndricos em Ônibus, conhecido como ECOCÔ, ou Lei Jaguara: Artigo 38, parágrafo único:
Em não havendo consenso quanto à acomodação do cofre, este será posicionado entre as pernas do cobrador.
O consenso é importante também na hora de escolher a carne para o churrasco. O que comprar, onde? Na Cohab Duque, em São Leopoldo, todos concordam que o mercado do João é o que tem melhores carnes e um preço mais em conta. De modo que muita gente procura o lugar em domingos de manhã e, consequentemente, gera-se uma respeitável fila no açougue.
Só que nem todos são compreensivos com a fila. Os açougueiros são poucos e a variedade de cortes é muita. O pessoal fica confuso e parece uma repartição pública de tanta demora e detalhes a serem observados. A pessoa se indigna, como uma mulher, um dia desses, ao desabafar com outro na fila:
- Por isso que eu prefiro comprar lá no Zé, aqui é uma democracia! Demora dez ano pra atender a gente.
É por essa razão que eu sempre aconselho açougues autoritários. Meu pai sempre dizia: tempo bom de ir no açougue era na ditadura. Atendiam rápido a gente. Hoje em dia, com esse açougues democráticos, temos que sair de casa às oito da manhã.
Como serão os açougues na Coreia do Norte?
Mas quem pensa que a palavra leva surra apenas de uma parte da nossa fauna intelectual engana-se.
O Betão, amigo meu, apesar da lentidão intrínseca e da fanfarronice crônica, é um homem muito lido, um sensível e talentoso artista. Também não resistiu à rebeldia da palavra, como no dia em que sua filha lhe disse que iria executar outro comando no computador:
- Pai, que que faço?
- Milimiliza!
Ou minimiliza. Miniminiza? Talvez. O fato é que foi incompreensível e eu cheguei a chorar. O Tonho, quase.
A esposa do Dirceu, Clementine, também guarda seus louros intelectuais. Professora de inglês, viajada, tradutora juramentada, tem até papel timbrado com brasão da república e carimbo. No ensaio de sua banca de mestrado, em que apresentaria uma valiosa pesquisa de sociolinguística, ela inovou:
- Então, esse tipo de ação invibializa o trabalho... ops!
Deu-se conta, riu, tapou a boca com a mão.
- Já pensou se faço isso na banca?
- Capaz. Na hora tu não vai dar bobeira, não te preocupa. – Amenizava o Dirceu, enquanto ria da situação.
- Então, esse tipo de ação invibializa... ops.
Acho que ela quis morrer.
Ao menos o Dirceu queria, de dor nas mandíbulas.
14.7.11
Lamento Urbano - Um Folhetim Zim - Parte 3

Porém, o campo fértil das palavras, com seu repertório infinito de galanteios e representações estratégicas de inteligência fariam desse fato um evento comum. E isso acontece. O próprio Dirceu atribui seu histórico de mulheres bonitas à sua sagacidade em assuntos de literatura, geografia, cinema, eletricidade predial e meio ambiente. Acabou se casando com uma sósia da Uma Thurman (da época Pulp Fiction), e que, embora se interesse pouco por geografia e nada eletricidade predial, sabe tudo de literatura e cinema, além de separar o lixo para a coleta seletiva das quartas. Ou seja, deu uma baita sorte. Poder da palavra.
Mas esse poder não se encerra por aí. O homem (e a mulher) não quer apenas se apropriar do poder da palavra em seu benefício próprio, o homem quer reconstruí-la, redesenhá-la. E faz isso permanentemente. O Luis Fernando Verissimo disse, ao encerrar o Gigolô das Palavras, que a gramática tem de apanhar, pra saber quem é que manda. E o homem (e a mulher) faz isso com as palavras. O homem (e a mulher) a puxa pra lá e pra cá, enfia-lhe goela abaixo sílabas, tira-lhe do lugar, reconstrói seu sentido.
Quer ver?
Eu estava dando aula de Português para uma turma de ensino médio. Primeiro dia. Propus uma conversa inicial para que todos se conhecessem. Lá pelas tantas:
- Meu nome é Henrique.
- Tu trabalhas?
- Trabalho. Sou montador da loja de móveis Stelter.
- Bah! Deve ser um saco quando tu montas e sobram parafusos. – Disse só para alongar o papo e gerar umas risadinhas gentis, mas o Henrique se identificou, ergueu a bandeira dos montadores paladinos de móveis, discursou e sentenciou.
- Toda vez sobra parafuso! É inédito! – E disse isso olhando para a turma e balançando a cabeça de indignação, sem esquecer de sublinhar:
- Nunca vi! Tá loco! É sempre! Sempre! É uma coisa inédita! Sempre sobra parafuso!
Esperei ele terminar, para ver se ele estava brincando. Mas não. Estava falando sério. Alguns alunos se (me) entreolharam. Decidimos, por telepatia, deixar pra lá. Mais pra frente, com intimidade e num momento de crise, jogaríamos isso na cara dele.
18.6.11
Lamento Urbano - Um Folhetim Zim - Parte 2
10.6.11
Lamento Urbano - Um Folhetim Zim - Parte 1
Tonho e Betão
Betão e Tonho encontraram-se no Xis do Zeldo no entardecer. Pediram uma ceva:
- Traz de litro! – Enfatizou o Tonho.
- E um cinzeiro, Zeldo! – Lembrou, em tempo, o Betão.
Tonho cruzou as pernas e, embora anoitecesse, manteve-se de óculos escuros.
Betão acendeu um malborão, passou o isqueiro pro Tonho e começou reclamar de dinheiro:
- Tô apavorado! – Dizia.
O Tonho, imerso na fumaça de cigarro e vivendo imensamente a penumbra plácida de seus óculos escuros, pensava em algo pertinente para dizer, mesmo que estivesse ouvindo pela milésima vez no ano aquela fatídica lamentação. Ao fim de dezoito minutos de uma prosa lenta (Betão é muito lento) e pouco empolgante, Betão enfim parou de falar para acender o nono cigarro.
O fim do canto fúnebre de Betão tirou o Tonho de sua flutuação lírica vespertina e o fez pronunciar uma frase esforçada de consolo:
- É mesmo?
- Sim, tô mal de grana.
- Bah!
E pediram outra ceva.
7.5.11
Caroline ou Feliz primeiro Dia das Mães
14.10.10
7.5.10
Eu Lírico, Tu Líricas
Eu quis fazer poesia
Mas me tornei um umbiguista lírico
“e eu com isso que tu tá deprimido”
Diziam de soslaio os pragmáticos.
Eu quis fazer poesia
E me tornei um clichê anacrônico
“oh, parabéns, descobriste sozinho que o mundo
é uma merda?”
Diziam irônicos – oh – os homens sem sentimentos.
Enfim, quis ser regionalista
Ser antifascista, pós-modernista
E até emoanarquista.
Que saco! À procura da poesia
Sou plagiador democrático
Não passo de um plantonista
Um cínico socrático.
11.9.09
Cabelos Vermelhos

Perfaçam seus planos de viagem, não se distanciem, evitem dirigir na chuva, peçam desconto aos camelôs. Ela está de cabelos vermelhos.
Se andarem de ônibus, sentem à janela, é possível que ela passe com seu chanel ilícito deixando um rastro de saudade no passeio público. Por que os seus cabelos estão vermelhos.
Encaminhem pedidos de isenção de impostos para calmantes e incensos. E aos gurus, procedam na cura coletiva, espalhem bolhas douradas de proteção a cada esquina, entoem mantras em lá sustenido. Ela está com os cabelos vermelhos.
Suspendam os trabalhos aos domingos, não privem um só trabalhador de estar à iminência de vê-la passar.
Se à tarde fizer sol e todos forem à praça tomar chimarrão, podem encontrá-la lá. Finjam discrição e a admirem de modo a não constrangê-la. É difícil vê-la tão bela, mas compreendam, ela está de cabelos vermelhos.
É necessário ter calma se, num semáforo, ela cruzar a faixa de segurança. Ela percorrerá cada retângulo de forma épica, e é possível que ouçam árias coloridas entoadas pelo ar a cada passo seu. Pois ela está de cabelos vermelhos. E o mundo está diferente.
Por isso, concedam anistia aos presos políticos, aumentem drasticamente a receita para a educação, retomem as cantigas de roda, ensinem poesia concreta às crianças. Porque ela está de cabelos vermelhos, e arte é uma urgência.
Evitem os excessos de maneira a não estarem ausentes, controlem o álcool e as coisas gordurosas. Sirvam pratos coloridos e não bebam água nas refeições. Ela está de cabelos vermelhos, e nossas vidas clamam por cuidado.
É possível encontrá-la à noite, e talvez não percebam o quanto são letais suas curvas e que o castanho dos olhos dela é a mistura das tintas de todas as paixões do mundo.
Mas se ousarem vislumbrá-la em toda sua desleal verticalidade, evitem chorar. Se o fizerem, colham as lágrimas e fertilizem seus jardins. Permitam que nasçam flores em ode aos seus cabelos vermelhos e que as crianças sintam seu perfume enquanto brincam de pegar.
Seria aceitável promover a paz entre parnasianos e modernistas, se a encontrassem à tarde tomando café na Rua do Ouvidor. Entre Picasso e Modigliani, se a vissem percorrer as ruelas de Barcelona numa tarde de sexta.
arte de .. . luana
6.9.09
LEVAMOS!!!
31.8.09
Man in the Box
Mas estamos interessados em falar do homem no caixa. Pois bem, eis que fui num dos grandes mercados do centro daqui de São Leo. Fazer compras. Evidentemente. Ou como se dizia no filmes antigos com dublagens estranhas: comprar provisões. Mantimentos. Coloquei no carrinho o que o dinheiro contemplava. Meu kit básico se concentra em massa, molho pronto, pimentões, cebola, tomate, repolho, cenoura e, dadas minhas condições sociosubjetivas atuais, uma garrafa de conhaque – barata, é claro. Um dado importante, mais uma queixa derradeira cantada sobre o túmulo de Orpheu, é que percebi que, ao procurar os nomes dos corredores, fui apertando os olhos para ler melhor. Preciso de óculos, infelizmente. Mas vou apertando os olhos até onde der.
Pois bem. Cheguei ao caixa mais vazio. Uma mulher finalizava as compras. Retirava o cartão para passá-lo na maquininha. Fui tirando minhas coisas do carrinho e colocando sobre a esteira do caixa. Com meus fones no ouvido (pois ainda não consigo sincronizar muito bem os sentidos), demorei a perceber que ela olhava de soslaio para minhas compras. E de contrasoslaio – que é um movimento clássico do galanteio dissimulado – fui percebendo de quem se tratava. Morena clara. Com roupa de trabalho. Aqueles conjuntinhos que escondem as curvas mas nem tanto. No caso dela, era um quase nada. Curvas delineadas por um azul marinho. Curvas de setenta e cinco graus, daquelas que exigem perícia de quem ousa percorrê-las.
Parece que nesse instante ela reconstruiu todo o meu arquétipo de homem solteiro interessante. Olhou com desagrado descarado para a garrafa enquanto o empacotador guardava suas comprar. Na certa, inferiu que eu fosse um bêbado. Desses compulsivos que exalam álcool e se tornam desagradáveis e agressivos. Pensei em comentar para a moça do caixa “meu irmão pediu pra comprar, não é um abuso?”, ou “meu amigo tá fazendo aníver eu me pediu um conhaque de presente, vê se pode”. Ela fez cara de pressa, não comentei nada, ela logo se retirou com suas compras, sem olhar pra trás.
‘Grandes coisa!’, não gostei daquele pingente de igreja que ela estava usando e detesto brincos de prata. Aliás, o lábio inferior dela era muito pequeno. Não dá, definitivamente. Sorte a minha que eu coloquei a garrafa de conhaque na esteira a tempo. Que que ela está pensando?
25.8.09
Prece de outono
Abençoai
os que fazem do conviver
o riso fácil.
Que não convergem na razão,
mas consolam na dor.
Eles, que na ânsia de ver passar
vaporam sonhos,
compõem versos,
fazem versões de canções velhas
para agonias novas,
aqueles que ensaiam trovas,
e não se preocupam em consumir
com a estética.
Abençoai o riso estático,
que nasce da voz frenética,
que contempla o beijo tácito,
que morre na frase hermética,
abençoai.
Abençoai ainda
os que não entendem,
por querer fugir da vida.
Os falsos indiferentes,
que sofrem calados
mergulhando na erudição.
Abençoai o falso não,
e sua serenidade pálida.
Abençoai os que vêm,
na enfermidade física,
acalentar ao amigo
sua moléstia do espírito,
que a paz esteja consigo.
Acalentai o desencarnar
dos suicidas,
que sofrem na alma
a dor da carne,
e aos que fraquejam por amor,
entendei-os mais,
pois sucumbem perante
a perfeição fugaz da tua engenharia.
Compreende os que abandonam o dia
e buscam consolo na noite,
privai-os, pois, do atroz açoite.
Abençoai os que não tem voz,
e guardam mil versos por declamar.
Os que amam o mar,
Mas têm medo d’água.
Os que não guardam mágoa
os que pecam,
e os que ainda vão pecar.
Abençoai a ausência
efêmera da alegria,
que se ela não poupa
os olhos de chorar
que ao menos deixe
bocas para rir.
Abençoai os que desesperam
por arrependimento,
sobretudo de quem foram
confiscados
o direito de perdão.
Abençoai a angústia de quem vive
E tende piedade da solidão de quem ama.
11.8.09
Queixas Noturnas
Sem preâmbulos trágicos e rodeios introdutórios vou compartilhar um causo que bem podeira ser mesoverídico ou uma inverdade plausível. Porém, trata-se de um fato verdadeiríssimo. 29.7.09
DIÁRIO METROPOLITANO III
Na inexistência de fragmentos românticos, imaginei uma cena metropolitana, com pitadas homeopáticas de inimagináveis pieguices.
Uma tarde qualquer de férias de inverno. Pode ser um terça. Um cenário melancólico, cheio de um cinza repleto de lirismo e súplicas. Nessa imaginação, penso um trajeto de trem, em que paro numa estação e encontro ela. Vestida de inverno e com uma faixa delicada no cabelo. Com a mesma boca insinuante que contrastava com o dia útil. Aquilo seria uma boca lasciva demais para uma plataforma de trem. Mesmo assim estaria ali, corrompendo as pudicas senhoras da tarde. E eu, nesse contexto, disfarçaria interesse e comporia as mesmas mesuras de homem cortês, tantas vezes ensaiadas perante o espelho.
Num arroubo de romantismo, doravante, imaginaria ainda a possibilidade de uma conversa que tergiversasse teorias literárias, possibilidades lingüísticas e sofismas filosóficos, desde o trem, passando pela Rua da Praia até um sétimo andar qualquer que avistasse o rio e que servisse café. Para arrebatar um intermédio de idealização, ponderaríamos pedir chope no lugar de café, apesar dos nove graus de frio. Ou seja, um choque de imaginário goetheano, totalmente impensável para uma tarde gelada de uma terça de julho. Sobretudo se supuséssemos que ela pudesse compor teorias religiosas com doçura e propriedade, impondo um desafio cruel: prestar atenção à sua teoria ou desviar o olhar daquela boca.
De repente, entraríamos, com receio do frio, para o interior desse andar e, lado a lado, percorreríamos narrativas em andamento e os desafios da construção da personagem. E nada seria mais surreal, porém, do que se uma dupla solitária entoasse, num palco no cantinho do andar, bossa nova só pra gente e pros garçons ouvirmos. Mais que isso seria pensar que esse cenário todo abriria as cortinas praquele beijo natural, que é dado sem prévio acordo e que vem cheio de implicações poéticas.
Depois de dez chopes seria razoável até que os garçons esquecessem de marcar um ou dois. Desceríamos o elevador contando vantagem e num abraço inconseqüente. Na certeza de que aquilo tudo seria um mero fragmento na cronologia fugaz das nossas vidas. No trem, já no retorno, escolheríamos o banco mais improvável, no cantinho do vagão, aquele em que só cabem duas pessoas. E ela, numa atitude irrefletida, sobreporia as pernas dela nas minhas e seguiríamos silentes estação por estação, compartilhando os fones do radinho.
Num ápice de adolescência, no entanto, ao descermos do trem, mesmo prometendo pra mim mesmo que não, eu insistiria pra que ficássemos mais uns momentos juntos. Num beijo afetuoso, nos despediríamos. Os motoristas engatariam a primeira marcha e a noite começaria a morrer.
Entretanto, na inexistência de fragmentos românticos, vou esperando a madrugada adormecer. Amanhã é quarta-feira. Temos que nos inscrever pro festival de teatro de Gravataí. Faremos o roteiro da nossa nova comédia. Tenho artigos a formatar pro livro da nossa pesquisa. O fusca está sem gasolina e tem cover de Chico Buarque na sexta.
14.1.09
Promete!
Dirigindo-se ao carro, segurando duas baquetas, um cubo Meteoro e uma guitarra Gianinni velha, azul e branca, à tiracolo, ele se dirige pra o Chevette 83 marrom com pressa e tenta dar atenção a ela, que o enche de orientações sociais:- Tu acha que tocar samba-rock e ficar com essas coisas de mantra vão te trazer algum benefício?
-... (ajeita a guitarra no ombro direito).
- Por que tu ta usando essa bata branca de novo? Já te disse que tu parece um ripe!
- ... (chega no carro e larga o cubo no chão).
- Eu não sei, não sei onde tu quer chegar com essa barba por fazer e essa cera no cabelo. Tu é tão bonito. Te cuida. Corta essa cabelo e arruma um emprego. Tu acha que um homem assim consegue “alguma coisa”[1]?
-... (abre o porta-malas do Chevette).
- Eu tô preocupada contigo!
- Por quê?
- Esses shows que tu faz. Um monte de mulheres dando em cima de ti. Não gosto.
- Tu não tem que te preocupar.
- Claro que não né? Tu com esses drédi lóquis. Esses colares indígenas. Essas tatuagens esotéricas nos braços. Essas batas de algodão. Quem vai se interessar?
- Pois é, por que essa neurose?
- Não sei, me preocupo, me dá um ciuminho, mesmo assim.
- Bobagem.
- Bobagem nada. E tem mais, essas cachaçadas. Acha que eu não sei que a mulherada fica louquinha quando toma um trago.
- E daí?
- Daí que os primeiros caras da festa pra quem elas olham são os músicos.
- Mas a gente está lá pra trabalhar.
- E ainda tocam Samba Rock, elas ficam doidinhas pra dançar. E mais, vou te dizer uma coisa: se eu souber que tu anda tocando Alceu Valença pra mulherada, eu te mato!
- Tá bom!
- Promete?
- O quê?
- Que não toca Alceu Valença?
- Se eu não tocar Anunciação, nem nos contratam.
- Tá bom. Mas promete uma coisa?
- O quê?
- Que quando tu cantar a parte “eu já escuto os teus sinais”, não vai dar aquele risinho sacana pra mulherada, que nem tu deu pra mim naquele luau da Guarda e depois me levou pro camping do baiano.
- Prometo!
- Outra coisa.
- O quê?
- Não quero que tu fume!
- Tu sabe que eu larguei o cigarro a três anos.
- Não te faz!
- Como assim!
- Assim mesmo!
- Assim como!
- Não quero que tu fume maconha!
- Tá bom! (Entrou no carro)
- Promete que vai segurar tua onda?
- Prometo! (Prendeu o cinto e deu a partida)
- Tchau! (Deu-lhe um beijo cheio de saudade)
- Voltamos semana que vem! (Engatou a primeira)
- Onde vocês vão tocar amor? (Gritou)
- No Psicodália! (Engatou a segunda e cantou pneu)
-... (Gritou)
[1] As aspas são notas do narrador.
29.12.08
O TORNOZELO (Final)
Enorme. E como o mar dentro da treva
Num Constante arremesso largo e aflito
Eu me espedaço em vão contra o infinito. (...) Vinícius de Morares
Otimista, ele começava a perceber que estava difícil de achar o livro e sem cogitar a possibilidade de que o tivessem levado perguntou dele para o livreiro, que, sorrindo, respondeu: saiu hoje de manhã esse livro. Saiu? Sim. Compraram. E não tem outro? Não, esse livro aparece pouco.
Martinho foi, vagarosamente, amassando as notas e colocando-as na bolsa. O livreiro o perguntou se seria só esse, se ele não queria dar uma olhada em outras coisas. Educamente, ele disse um não, obrigado! E sentiu como se lhe tivessem avisado que seu melhor amigo, de verdade, tinha ido embora na noite anterior, sem se despedir nem deixar carta.
Sem saber o que pensar, fechou a bolsa e saiu a caminhar, sem fixar-se em nada, mancando timidamente.
Ao chegar à primeira esquina, sentiu que o tornozelo não lhe doía mais. Parou de mancar, e foi pegar o ônibus.
28.12.08
O TORNOZELO (parte 2)
Mas no dia em que, salpicando um segundo andar, ele caiu do andaime, não machucou grande coisa, a não ser um mau jeito no tornozelo que lhe doeu impiedosamente e o fez mancar por aquele resto de terça, sem parar doer. Nesse tempo, passou a viagem de trem em pé e desceu na última estação com dores mais fortes. E caminhando devagar pôde olhar com calma pra dentro daquela livraria. E viu um colorido simpático de livros dispostos com exatidão e cuidado do livreiro. Entre seus olhos cansados e o colorido simpático percebeu uma cadeira vazia. Nesse movimento todo, achou que poderia descansar ali o tornozelo até chegar à parada de ônibus. E o fez!
Sentou-se com cuidado e vergonha. Sentindo-se estranho entre tanta gente estranha. Cabelos coloridos, roupas diferentes, conversas pouco compreensíveis, cigarros que formavam um tipo de fogueira do desespero. Mas nada era mais caro do que alívio de tirar o tornozelo do chão, e de olhar praquelas cores harmoniosas e pacíficas que se perfilavam nas estantes.
Numa fisgada de dor, fechou os olhos para contê-la e só os abriu quando passou. E ao abrir, percebeu que seus olhos estavam fixos com convicção em um livro branco, de letras azuis e pretas, e o desenho de dois homens jogando damas em um grande tabuleiro. Pediu para ir ao banheiro, e foi. Lavou as mãos, voltou. Pediu por favor se poderia folhar um livro. Escolheu aquele. Pegou com cuidado, sentou novamente. Era uma autobiografia. Contendo a dor no tornozelo ele começou a folhear e parou-se depois dos agradecimentos, sumários e outras páginas já no segundo capítulo.
Parece que lhe chamou instintivamente a atenção uma frase que no início do texto dizia “vou escrever alguma coisa que não sei o que seja, justamente para ficar sabendo”. Um pouco sem entender, aquela frase lhe soou amiga. Ele sorriu. Fechou o livro e ficou pensando naquilo como quem pondera sobre fazer ou não uma assinatura de jornal. Leu mais um pouco, com dificuldade em entender algumas palavras, e entregou o livro ao livreiro. Agradeceu. E tendo recebido um sorriso e um adeus joviais do homem, pensou que talvez pudesse continuar a leitura amanhã. Aquela parada tinha feito-lhe bem. Conseguia caminhar um pouco mais rápido e agora tinha algo a mais em que pensar, algo que não lhe era forçado pensar.
No outro dia foi pego escrevendo no chão “encadeamento”. Logo depois, surgiu um “Flaubert” riscado em laranja num cano de concreto, sem o”t” final. Questionado pelo colega, ele disse que escrevia essas palavras porque não as conhecia, e que assim teria a possibilidade de conhecê-las: escrevendo. Nesse mesmo dia, chegou timidamente à livraria e cumpriu o mesmo ritual do dia anterior. Saiu de lá empertigado, com o tornozelo descansado, embora com leves dores, pensado no quanto seria estranho se os grilos não cantassem mais, como teria lido no livro. À noite, fechou os olhos, e tentou imaginar a noite sem eles, e ponderou que não era possível e que isso realmente era algo desagradável. Ele desconhecia a função dos grilos, mas era indispensável que eles continuassem cantando.
No dia seguinte e nos três que se seguiram, descansou o tornozelo entre a cadeira e o livro e enquanto mais pensava no livro menos o tornozelo lhe doía. Num quarto dia, porém, não havia lugar em que se sentar e passou lentamente e aborrecido pela livraria, mirou o livro lá na estante e resolveu seguir pra parada. Aquela quebra na sua rotina aborreceu-o. Seguiu contrariado para casa. Pensou, então, que o melhor seria se o livro fosse dele, que agora ele precisava do livro e que ler o restante lhe era imprescindível. Perguntou, no outro dia, quanto o livro custava. Quinze reais, respondeu o livreiro. Martinho engoliu seco e seguiu pra casa. Afinal, com quinze reais compra-se muito leite, ou muito pão, bastante carne moída ou talvez arroz e feijão. Num bom mês pode-se pagar quem sabe a conta da água. Ainda assim, pensou que poderia dar um jeito, que sua mulher não precisaria saber e que nada faltaria dentro de casa.
Durante uns sete dias seguiu lendo com alegria, entre dias que não havia cadeira para sentar. Decidiu contar moedas e tentar um trabalho extra com um conhecido da obra. Conseguiu descarregar um caminhão e carregá-lo de outras coisas num armazém perto da construção. Ganhou dez reais e contou um real e cinqüenta na bolsa. Estava quase. Chegou tarde em casa naquele dia e não pôde ler. Ia compondo as histórias do escritor em sua cabeça e as contava para os colegas em casa e para sua mulher à noite, que lhe perguntava sobre o tornozelo e pedia farinha de trigo para fazer pão no outro dia e um vale transporte para ir fazer uma faxina em Sapucaia.
Naquela noite, descobriu em sua bagunça, um disco de música sertaneja, quase novo, e deu um jeito de achar quem o comprasse por cinco reais. Passou o dia seguinte contando os minutos para chegar orgulhoso na livraria e levar seu livro. Livrando-se do problema de às vezes não ter lugar para ler. Já com menos dores no tornozelo, mancava menos e sorria mais, falando sozinho vez em quando, lembrando frases e atraindo olhares no trem, a uma estação do final, postou-se na porta.
19.12.08
O TORNOZELO (parte 1)
Martinho é desses caras que a gente não sabe mais a idade que tem. Não se sabe a cor exata que tem. A idade engana pelo cansaço da obra. Pela força desproporcional que se faz todo o dia. Baldes alçados pelas roldanas. As mãos que, cansadas do sufocamento das luvas, pedem para respirar e não se importam com os calos, nem em ser abrigo de felpas. O céu no trecho insiste em ser cinza, e cada respingo do salpique que volta no rosto é como se insistisse em roubar um dia da sua vida. A cor engana pelo amontoamento de sol a que a obra não deixa escapatória. Sol autoritário. Intransigente. E o vento. Traz coisas ásperas, traz as dores dos outros, levanta o pó cinza e hostil do cimento que se mistura com o pó laranja e renitente dos tijolos. É certo que o vento traz as nuvens que tampam o sol, que por ventura trazem a chuva, mas nem mesmo esta é desejável na obra.
Em meio a tudo isso, Martinho perde a conta de saber o que é bom realmente. Era pro frio ser bom, mas ele parece que só quer ver sangue, a ponto de não se poder nem bem pegar uma telha brasilit com pouco cuidado que já um esfolamento é motivo de chateação, haja sangue e saco.
No fundo, Martinho sabe que todo esse contexto lhe quer ser hostil. Mas em casa há quem o espera a ele e não entende bem se algum dia de noite faltar ovo frito com feijão. Ou também pode estranhar se algum dia de manhã o café com leite estiver sem leite. Sendo assim, não lhe pode ser hostil o fardo que lhe garante pagar o caderno da venda, ainda que seja, não pode.
Usa sempre uma calça azul marinho. Acinzentada pelo pó do cimento, e também carregando um pouco de cor ocre da terra, da areia de construção.
E assim, fingindo não ver as agruras do tempo, vai mudando de trajeto. A casa é a mesma. As obras nunca são. Então cada trajeto oferece uma nova paisagem. Essas paisagens mudam todos os dias. A cada dia, muita coisa é itinerante, as pessoas são itinerantes, os cachorros, os sacos de lixo, os carros, os sonhos. Nas paisagens, porém, não mudam de lugar as casas, os postes, os mercados, as preces, as livrarias. Dessas últimas, uma fica perto da estação de trem. Os livros bem dispostos em estantes de madeira. Muito convidativas. As quais são vislumbradas da rua por entre o vão de duas grandes portas com cortinas de aço, por onde se vê também umas mesas marrons com cadeiras de madeira com palha.
Entre o instante em que ele desembarca do trem e o momento em que ele pega um outro ônibus para ir pra casa, existe um tempo generoso com que se pode fazer muitas coisas. Nesse tempo rapidamente ele caminha até a parada, como se fosse perder a condução, mas o que ele tem mesmo é receio de caminhar devagar e passar por desocupado. E ao chegar à parada ele procura um lugar pra sentar. Senta. Põe-se a acompanhar o movimento do cansaço do dia, no momento em que todos vão pra casa. Vê os ambulantes venderem coisas de todo tipo. Diz não para os vendedores de vale-transporte. Em suma, diz não a todas as coisas que lhe oferecem, as que não precisa e as que não pode comprar.
20.11.08
prosa poética
E essa mania de andar sorrindo tem-me rendido muitos e afáveis amigos. E a cada gracejo uma gargalhada ensaia um choro involuntário cheio de rubor e falta gostosa de ar. E essa mania de andar cantando de BL no rosto e fone no ouvido me rende comentários escondidos que os vejo, mas não ouço. Esqueço a letra, cismo, e não rimo.
E essa tua mania de ser o que eu sempre quis tem-me tirado o sono. E a cada bocejo de dia é um choro involuntário e um sorriso a menos. E essa mania de ir embora pra sempre me tem deixado sem graça. Perco o tempo do verso, e não rimo.
23.10.08
Um certo fanfarrão Berú
Negro Luis, pai de santo e amigo meu, diz que de tanto se enfezar com gente de bem e valentão meia-boca, hora ou outra o cabra de sangue ruim há de topar com um mais malvado, e daí é hora de separar homem de criança. E não é que o Negro bem é que tinha razão, pois foi do Guilhermino Berú dar de machão pras bandas de Aguaceiro que deu o maior azar do mundo. Foi topar com o Pedro Não-vai-com-as-caras passando pernoite na pensão de Maria Branca.
Era de paz o Pedro, mas arrastava uma tropa de zebu a soco e pancada se encontrasse caboclo fanfarrão. Nessa mexida de inda e vinda deu com o Guilhermino inventando bate-boca pra não pagar pouso à Maria Branca, que era senhora de afeto e muita consideração com os clientes e vizinhos da banda de Aguaceiro. Pedro Não-vai-com-as-caras apareceu de passeio pela porta alta. Era grande o Pedro, se era. Já tinha passado de dois metros fazia tempo. A cabeça era enorme e era guedelhudo de cabelo. Um olho grande e marrom de cavalo, meio índio meio não-sei-quê de asiático e com uma barba que tapava todo o queixo e o maxilar.
Foi um corre-fofoca tão ligeiro que quando saiu de Aguaceiro lá em Jiruá já se sabia do chute no rabo do Berú. Quando deu da chegada dele na cidadezinha o pessoal se encolhia pra rir, mas se apertava de medo, porque como diz o Negro Luis, homem desonrado é homem matador. E não é que o Guilhermino andava a fim de fazer gente deixar de existir quando entrou no bar do Alceu Peróba? É. Entrou e foi logo saindo com cinco pedras na mão, como se o pessoal que andava por ali – de cachaça e baralho – tirando o pó do trabalho tivesse culpa dele andar desregueado por aí. Foi logo dando ordem de não tira farinha comigo e vou beber de graça. Lá no canto do bar um cabra amarrava o cadarço e fez pouco caso da bravata do fanfarrão e o Beru viu e já saiu prometendo: fica aí que eu vou tirar água do joelho pra te furar esse lombo desaforado. E foi pra latrina, na rua, bem sim-senhor.
E não é que enquanto Berú descarregava água a casinha da patente veio abaixo? Parecia terremoto. Madeira sobre madeira e prego enferrujado entrando na bunda do Guilhermino. Era o Pedro. O cabra que amarrava as botas e foi prometido pelo Beru dentro do bar era o Pedro Não-vai-com-as-caras. Foi um gritedo bonito de ouvir. O Pedro deu dois pulos encima do maderame e parecia que o Beru era um porco sendo carneado errado. Mas o Pedro foi bondoso e ainda tirou uma madeira da cara do Guilhermino que era pra ele ver de quem tava apanhando. E ainda avisou uma coisa que era pra ficar mais humilhante, que eu não te mato agora que anda me fazendo falta quem mereça apanhar.
10.10.08
Amigos
Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro,
E às vezes, quando os procuro,
Ontem à tarde, no percurso de uma roda de chimarrão entre amigos, toca o telefone celular. Em princípio, uma interrupção em mau momento, pois cortava nossas risadas e afetos ao meio.
Tratava-se de um grande amigo da faculdade, com quem já compartilhei desde discussões complexas e sonolentas sobre linguística até meus êxitos sociais e dissabores amorosos, entre cervejas rápidas e pratos de comida. Atendi:
- Alô!
- Precisa fazer essa voz de macho pra atender?
Dei réplica ao gracejo e continuamos por ali uns quatro minutos, entre bobagens e retóricas enferrujadas. Enfim, fiz aquela clássica pergunta:
- Então, o que que manda?
- Tá onde?
- Na faculdade, tomando um chimas com o pessoal.
Fez mais gracejos, riu por eu ainda estar ali depois de formado, me cobrou a ausência no aniversário dele, e eu quase cobrei a dele na minha formatura. Eu disse que explicaria pessoalmente, mas que lamentava não ter ido. Ele não mora longe. Taquara é aqui perto, quarenta minutos de carro. Continuou:
- Como é tu tá?
- Tranquilo, tranquilo. – resposta de protocolo.
Perguntei também como ele estava, os estudos, a Ana...
Ele consentiu que tudo bem e eu perguntei “e no mais?”, esperando, por fim, a razão por ele ter ligado. Pediria um favor qualquer, para falar com alguém, solicitar pouso como já fizera, qualquer coisa.
Continou querendo saber de mim, do trabalho, eu brevemente disse que as coisas estavam se encaminhando, que a vida aos poucos se ajeita e que tínhamos de nos ver.
Marcamos de nos ver uma hora dessas, ele começou a se despedir aos poucos, fizemos as mesuras de amigos, nos despedimos, desligamos.
Essa mera lembrança dele me fixou o pensamento ao longe e fui vagarosamente, por dentro, sendo tomado de um sorriso que durou quase até o fim da noite: ele tinha me ligado pra saber como eu estava, somente isso.
15.8.08
Faz 31 anos que o Elvis morreu ou Não tenho dinheiro pra te comprar um presente
mas s’eu encontrar uma mulher
que goste de Rock ‘n Roll e bossa nova
eu finjo que preciso descer
na mesma parada de ônibus que ela
e desço
se ela passar por mim
vestida de sessentista
eu olho pra trás e tropeço
e se ela me aparecer,
de repente, com a franja aparada
e o cabelo vermelho,
desmarco a cervejada
e desapareço
se ela disser que gosta de poesia
eu tento conter o sorriso,
se ela disser que as escreve
eu [*]
choro
se os olhos dela forem azuis
eu não me importo,
mas se forem castanhos
eu perco a pose,
e nem pisco
se ela souber o sentido dos sonhos
eu silencio e ouço,
se surgir o céu no centro
do seu olho,
eu cego
e nem sinto
se ela adorar cinema,
e se usar all star,
e se falar bobisses,
e gostar de voltar a fita
pra entender o filme,
eu faço um plano de marketing
eu marco um chima
se ela entender de diálogos
e de dia analisar os discursos
e ponderar as conversas,
e se de noite, compondo versos,
discursar análises,
eu me empertigo,
e não me perco
se ela me convidar pr’um vinho
eu estremeço
esqueço o último ônibus
eu perco
e se por acaso
depois do sexo
ela sentir desejo
de comer pipoca
eu caso.
[*] (não consigo conter o)
13.5.08
Molière ou Nem preciso dizer que eu adorei teu cabelo vermelho

Era o espetáculo de inauguração do Teatro Municipal. Ele era parte do elenco que contaria a história do teatro e da dança. Encenaria Molière e mais uns dois narradores.
Aproveitou pra convidá-la. “Aproveita e vai ver o espetáculo sábado ou domingo, 19h. Chega meia hora antes pra pegar senha, é de graça”. Nem beijo nem abraço. Só gentileza. Tantos são os amigos que vão, fora os que prometem e não vão e que são compensados pelos que não prometem e acabam indo. Ah! Mais um convite solto. Solto?
Dia do espetáculo, chuvoso e pouco acolhedor.
Eis que num sorvo ansiado e violento, Molière toma um gole generoso de cachaça de alambique – elemento infaltável a uma estréia – e se posiciona na coxia.
Hamlet dá seu texto e Molière surge lânguido do último refúgio do lado direito do palco e posiciona-se no centro, bem no pino central da luz. E num súbito virar de frente para o público, encontra Ela na primeira fila.
Em três segundos, e mesmo sem dedicar a Ela um olhar exclusivo, Molière consegue perceber a energia que o sorriso dEla emanava para o palco, como cem coros entoando a nona sinfonia ou um solo de trinta John Frusciantes.
Do olhar dela brotava a vivacidade de dez jardins da infância na hora da merenda, e Ele era a merendeira no primeiro dia de trabalho. Ainda assim, Molière manteve-se impassível, ignorando os fatos que na vida pregressa daquele ator poderiam tirar sua concentração.
Deu seu texto e retirou-se para dar espaço à dança da corte, após a qual tornaria à cena como Molière encenando Harpagon, o Avarento. Nesse intervalo, enquanto a dança evoluía harmoniosa e colorida, Ele postou-se discretamente atrás das coxias e buscou um vão entre elas pra que pudesse vê-la na platéia. Eis que durante uns minutos viu-se embasbacado admirando a expressão doce dEla ante o espetáculo.
Aqueles olhos brilhando como vaga-lumes sem dono, protegidos pela armação dos óculos, a mesma franjinha resignada acariciando a testa de pensamentos rebeldes e o sorriso de sol de primavera em Torres.
5.5.08
Mohamed von KLYNNVLYCK
Mohamed Hussain von Klynnvlyck, filho de Khaled Obah Hussain e Ivanovna Salenko Klynnvlyck nasceu em meio à turbulência da guerra entre a antiga União Soviética e o Afeganistão no dia 11 de março de 1960. Sua mãe, enfermeira russa enviada pela Cruz Vermelha para prestar assistência aos feridos de guerra, apaixonou-se pelo soldado Talibã, Khaled, para quem prestara socorro por conta da explosão de uma mina que o mutilara ambas as pernas.
Após a descoberta da gravidez, que já estava com dois meses – no dia 5 de novembro. 1959 – começam a delinear o plano de fuga que iriam executar em cinco de março de 1960. Ele abandona a milícia e ela a Cruz Vermelha e ambos fogem correndo para a fronteira com o Paquistão, na qual são mortos por agentes da CIA no momento do parto de Klynnvlyck.
O bebe é entregue a um orfanato paquistanês e lá é raptado por um mercador laosiano. A três de julho de 1960 é registrado na cidade de Vientiene, capital do Laos, como filho de Gengys Nacatam Busarat, mercador mongol naturalizado laosiano, a criança é registrada sem genitora. Klynnvlyck cresce em meio às negociações de seu pai adotivo e conhece todos os países da Ásia já aos 14 anos, tornando-se pai aos quinze, com uma iraniana da mesma idade com quem vem a se casar, Jade Arafat. Aos dezessete anos termina seu casamento com Jade e abdica da guarda de Mohamed Arafat von Klynnvlyck.
Em viagem à Mongólia, terra natal de seu pai adotivo, no mesmo ano, conhece Antera Khen Lahraual, jornalista nômade de 28 anos com quem tem seu segundo filho, que não chega a conhecer. Aos dezoito, tendo concluído seu estudos no colégio regular, seu pai o manda para a Espanha onde cursa Letras Clássicas pela Universidade Católica de Compostela e publica seu primeiro livro, A Bondade da Ponte. Obra em que discute as relações sócio-culturais entre países colonizadores e colonizados, sobretudo os de língua espanhola e portuguesa. Aos 22 anos nasce seu terceiro filho, Juan Pablo Ruella Quiroga Hussain von Klynnvlyck , filho da prostituta madrilenha Sarenita Ruella Quiroga. Ele o registra, mas é preterido por Sarenita e parte para a Universidade Anglicana de Toulouse, na França, onde inicia o mestrado e lança seu segundo livro, O Eterno Efêmero. Torna-se Mestre em Sociologia Epistemológica da Sociedade Pré-Rural e lança sua terceira obra, O Pós-Indivíduo: Arquétipo Mesossocial da Interneutralidade Cosmopolita Endoexterna, livro alvo de severas críticas da Escola Européia de Pseudo-Estudos Sociais, diretamente influenciada por Zem Samael Ying.
Em 1988 titula-se Doutor em Relações Transversais na Psicologia Pós-Moderna Marloneana pela Universidade Estadual de Birmigham, Inglaterra, e só então lança suas quarta e quinta obras, O Vislumbramento Acadêmico Pós-Juvenil e A Retórica do Desespero. Em 1991, com a crise da maçã na Romênia, publica A Dialética da Solidão, seu sexto livro, com que ganha o prêmio The Big Man, da London Knowledge Institute.
Após concluir Pós-Doutorado na Universidade Sul-Americana de Assunção, no Paraguai, com a tese A Hipoanálise Transfrástica do Terceiro Parágrafo do Conto O Outro, de Jorge Luiz Borges: um diagnóstico positivista à Luz da Insanidade Pré-Apocalíptica, em 1995 lança sua sétima obra, A Tríplice Fronteira Enquanto Não-Lugar de Alteridade. Em 1997, com a morte de seu pai adotivo, aplica sua fortuna herdada em ações da Microsoft e obtém lucros exorbitantes com os quais garante sua vida intelectual livre e passa a trabalhar com a cura de patologias emergentes, como a dos pseudo-intelectuais paranóicos. Em 2001, lança o livro O Não-Papel do Pseudo-Intelectual na Sociedade Ocidental.
Atualmente, Klynnvlyck leciona na Universidade de Hanói, Vietnã, está em seu sétimo casamento e aguarda o oitavo filho, enquanto prepara a publicação de sua nona obra. Segue participando de discussões e palestras pelos quatro cantos do globo.
...
...
Biografia por Leandro Coimbra.
2.5.08
Conversa contemporânea de amigos
fabiano diz:
olá moranguinho
Leandro Coimbra diz:
oi minha trufa de doce de leite
Leandro Coimbra diz:
minha compota de abóbora
fabiano diz:
olá minha gota de orvalho do amanhacer de um rosa roxa
fabiano diz:
olá minha pequena joanianha
Leandro Coimbra diz:
olá meu doce de figo cristalizado
Leandro Coimbra diz:
minha cocada de maracujá comprada no gasômetro
fabiano diz:
olá meu pintinho
Leandro Coimbra diz:
minha pintcher preta
fabiano diz:
ah meu rouxinol pardo que canta ao amanhecer
Leandro Coimbra diz:
oh! meu girassol do solstício de verão
fabiano diz:
ah meu pinguim de geladeira
Leandro Coimbra diz:
minha guirlanda de natal
fabiano diz:
oh minha pequena folha de goiabeira
Leandro Coimbra diz:
minha doce pitanga madura
fabiano diz:
minha linda gazela que caminha como uma bela dançarina de mambo
Leandro Coimbra diz:
minha lânguida ema que gira como um capoeira de angola
17.4.08
poema
Mas ele não sabe meu endereço.
Acho que o amor ainda vai dar uma conferência no meu país,
Mas ele insiste em não tirar o passaporte.
O amor quer folhar as páginas impressas do meu livro,
E queimaram meus originais.
O amor prometeu tomar o café da manhã comigo,
Mas não amanhece.
Soube que o amor veio à galeria ver as telas que pintei,
Mas já tinham derrubado as paredes.
O amor me deu um sinal de fumaça,
E choveu.
Eu acredito que o amor tenha tentado me visitar,
Mas já tinham derrubado as paredes.
O amor quer folhar as páginas impressas do meu livro
Mas ele insiste em não tirar o passaporte
Acho que o amor ainda vai dar uma conferência no meu país,
Mas ele não sabe meu endereço
Soube que o amor veio à galeria ver as telas que pintei,
Mas não amanhece.
O amor me deu um sinal de fumaça,
E queimaram meus originais.
O amor prometeu tomar o café da manhã comigo,
E choveu.
14.3.08
Sobre bobisses, amores, chimarrão e outras adjacências
É possível ser feliz indo no estádio e tomar ceva com água da chuva
Ser feliz
lendo até às cinco dormindo até às onze
ver o mesmo filme em cinco prestações
deixando o café ferver
falando sozinho na rua
declamando poesia que não existe
jurando amor sem réplica
discutindo sem retórica
é possível
É possível
ao fazer peixinho de pedra n’água*
ao derramar erva de chimarrão na roupa
ao ouvir radinho a pilha sem fone
história de gaúcho velho
(que conta sempre diferente a mesma)
mentira de pedreiro
Ser feliz
É possível ser feliz enrolando a língua
quer seja ébrio e mal aparado
quer seja sóbrio (e bem acompanhado)
É possível ser feliz pegando um ônibus
e ir jogar taco na praça
lendo rimas simples
de um livro com traça
fazendo careta pra criança
do banco da frente
fingir-se de louco, banguela
ou demente
É possível
Sendo sensato
Ser, insanamente, feliz...
*meu recorde é 5
Leandro Coimbra
15.2.08
Quatro Segundos
Ele entrou no bar desanimado, aborrecido com o dia cosmopolita e abrasador, intolerantemente quente e inevitavelmente cosmopolita. Além de cacofônico.
A noite já havia chegado há tempo e não o tinha chamado. Ele foi porque quis. Ao chegar a sua casa, antes de sair, olhou para a lua – cheia – e sentiu vontade de compartilhar esse retrato gentil e singular que havia no céu com alguém, o qual entendesse o significado tímido de olhar para a lua e tentar decifrar seu desenho. É evidente que esse alguém, ainda que pronome indefinido e invariável, teria um gênero bastante definido, pois as mulheres sabem melhor do que qualquer ser vivo sobre a poética intenção de parar-se no desenho da lua cheia.
No entanto, na fracassada tentativa de encontrar uma parceria para olhar para o céu, decidiu entrar no bar e esperar por um amigo que chegaria dali um tempo. No bar, o mesmo desespero de todas as noites, mizacenes de homens e mulheres na tentativa animal de fazer sexo com um desconhecido e desejar que ele desapareça depois da cópula. Ou então, contratar um namoro sério cheio de promessas e decepções, com intermesos de fúria e dominação.
Era, portanto, mais uma noite em que muitas mulheres se fingiriam de desinteressadas e outros tantos homens simulariam interesse, até mesmo em coisas que nem sequer ouviram falar.
Escorou-se numa prateleira lateral e, ao avistar essa antipaisagem, teve ímpetos de ir embora. Porém, um anjo caído da noite, desses que vagam pelas colônias espirituais da nossa pequena metrópole, deve ter soprado para que o cara do som tocasse Paint in Black dos Stones. Ele permaneceu para ouvi-la e ficou batendo com os dedos da mão esquerda na prateleira, acompanhando aquela bateria que lhe parecia um ritual indígena, desses que libertam a alma. E isso o segurou ali.
A música acabou. Ele tornou-se a si para voltar a conjeturar sobre aquela balada do purgatório. Nem bem ensaiou um olhar de cento e oitenta graus no bar o anjo caído continuou o seu trabalho e fez com que tocasse The Doors, Breack on Trough. Ele pegou no braço da garçonete e pediu uma cerveja. Já que estava lá e o cara de som parecia estar inspirado, não custava nada. Entornou o primeiro copo de um trago só, como se fosse um copo d’água no primeiro quarto de uma maratona.
Quando começou a tocar Crosstown Traffic do Jimi Hendrix, ele rendeu-se e chegou a abrir um sorriso, talvez o anjo caído o tivesse feito cócegas. Parecia que aquela noite estava perdida entre tantas outras. Era como se fosse uma noite horizontal que o autorizaria a apreciar qualquer coisa além das máscaras.
Não teve mais tempo de deliberar sobre a espera pelo seu amigo, tampouco de rever a situação daquele cenário de teatro dos opressores, porque percebeu que pela porta de entrada algo aconteceu. Muitas coisas ocorrem na noite. E todo mundo quer acontecer. Mas o que houve naquele instante em que ele olhou distraidamente para a porta era novo, estranhamente novo, inesperadamente perturbador, a ponto de fazê-lo ajeitar a gola da sua camisa preta.
Ela simplesmente tinha algo entre o que era inexplicável e o que responderia às mais angustiantes dúvidas do mundo. Quando ela entrou, era como se o próprio coração dele quisesse secar um copo de conhaque. Ao entrar por aquela porta, ela fez com que ele decidisse abandonar todas as crenças, porque havia acabado de descobrir o verdadeiro sentido da existência, e nenhum guru o tinha alertado que era ela.
Ele viu ali, há alguns metros seus, a calça jeans mais impetuosa da história, cobrindo as mais libertinas proporções e simetrias de pernas e quadril que seus olhos tiveram o atrevimento de descobrir. Viu o cabelo recortado vermelho dela acariciando o próprio pescoço, e isso o fez respirar tão fundo que esteve perto de ficar zonzo.
Ela sorriu. Um sorriso tão empolgante e sincero que o fez ter a sensação de que agulhas o injetavam adrenalina e morfina ao mesmo tempo. Um sorriso que deixava mais doce a linha que sua franja desenhava sobre suas sobrancelhas. Toda ela, os olhos, a boca, a blusa branca justinha, toda ela, em suas proporções, era a coisa mais linda do mundo. Ele a contemplava arrebatado, extasiado, certo de que aquela noite poderia mudar sua vida.
Ela merecia tudo. Todos os carinhos que ele nunca tinha ousado fazer. Todas as poesias que ele nunca soube escrever. Toda a paz do universo. Uma prova de amor a cada minuto. Ela merecia tudo o que ele nunca achou que alguma mulher merecesse. Ela estava ali, há poucos metros seus, e era como se toda a noite celebrasse a presença dela. E a essas alturas, era como se saber da existência dela o bastasse.
E no instante em que ele abaixou os olhos para tomar um gole ela o percebeu. Ele então subiu os olhos novamente e os dois olhares se encontraram. Não se sabe se ela, por distração ou convicção, parou seus olhos nos dele por quatro segundos. O fato é que, até ela ser interrompida por uma amiga, ele viveu intensamente cada um deles. Cada segundo.
Sem saber ao certo o que fazer, mas na certeza do que pensar, pagou sua comanda e saiu do bar, sem que ninguém talvez se desse conta da sua abrupta ausência.
Caminhou até o carro com um sorriso choroso. Como se estivesse purificado.
Entrou no carro disposto a conviver pra sempre com a dúvida da conquista da mulher mais linda e doce do mundo.
Mas com a certeza de que viveria na eternidade daqueles quatro segundos.
31.1.08
Laranja II

Em São Leopoldo abriu há uns dias um bar chamado Embaixada do Rock, no lugar de um bar que já existia, o W Bar, que também era estúdio de gravação uma época. Por último, parece-me que era um bar digamos assim mais plural, que buscava a diversidade, se é que me entendem. Porém, o bar fechou, o que entristeceu muito meus amigos Fabiano Fischer, Totonho Lisboa, Joãozinho Gremista e o Negão Samuca, pessoal muito chegado nessa história de diversidade sexual e tal. Mas isso não é necessariamente um problema meu.
O fato é que na noite de sábado eu tinha um show de rock para ir, só que em outro bar, que fica na frente da prefeitura, eu gosto de rock sabe, faz a gente se sentir capaz de enlouquecer, de ser o que somos em vez de parecer. Só que no outro bar a banda que ia abrir a noite tinha o meu sobrinho como guitarrista, e eu quis vê-lo. Estacionei meu Fusca num lugar que ficasse estratégico para que eu fosse aos dois bares a pé, enfim, poupar o meio ambiente e a gasolina. Estacionei tranqüilo, sem ninguém para atrapalhar.
Cheguei à Embaixada do Rock. Cumprimentei algumas celebridades leopoldenses que estavam em frente ao bar, como o Negão Luis e o Ninja Trindade, que juntos somam cerca de uns trezentos metros quadrados de tatuagem. Inclusive algum desavisado passante poderia confundir aquela mobilização em frente ao boteco com um enterro, devido ao quase monopólio de roupas pretas. Percebi que se tratava mesmo de um evento Heavy Metal, que é uma variante do Rock em que os caras têm uma “puta” cara de mau, mas bebem Coca-Cola no Mack (tradicional boteco urderground leopoldense). Nada contra! Nada contra!
Após os salamaleques révi-metálicos de sempre, paguei o ingresso e entrei na Embaixada do Rock. Lá estava meu sobrinho, o virtuoso Éverton Santos, coçando violentamente o braço da guitarra. Fui me esgueirando entre cabeludos de preto e emos perdidos até a beirada do palco. Posicionei-me do lado esquerdo, bem na frente, que era onde estava meu sobrinho.
Fiquei ali. Curtindo o som. Vendo as cabeças balançarem. Tudo muito sincero, como tem que ser a vida. Embora eu estivesse bastante compenetrado no som da banda, senti que um olhar me buscava insistentemente. Incrível como os olhares nos puxam.
Se duvida, faz um teste. Fica olhando, obstinadamente, pra uma pessoa que esteja de lado e aposto como ela olhará, hora ou outra. E foi o que me aconteceu.
Olhei.
Estava bem do meu lado, oitenta centímetros por aí.
Era uma mocinha.
Percebeu que eu olhei e deu um sorrisinho sem mostrar os dentes. Mas eu não estava lá pra nada que não fosse ver a banda do meu sobrinho tocar e ir pro outro show.
Era uma mocinha um pouco mulata assim tipo cor de aipim liso.
Percebeu que eu olhei de novo e me deu um olhar de viés, ou como diria o Machado de Assis, um olhar de soslaio. Mas eu não estava ali pra isso, já estava para ir embora.
Era uma mocinha com um cabelo cacheado, lindo até.
Olhei de novo para ter certeza e ela como tinha certeza de que eu estava olhando decidiu olhar pro palco como que nem estava aí. Mas meu objetivo não era esse, e também olhei pro show, afinal, estava ali pra isso.
Sabe que reparei na boca, era bem carnudinha, aspirante a Penélope Cruz.
Percebeu que eu olhava pra boca dela e deu uma maldosa e desumana umedecida nos lábios. No entanto, eu não estava ali pra isso.
Tudo bem que ela tivesse um olho preto impiedoso, convicto do que queria, mas eu também sabia o que queria, e não era aquilo.
Ela devia ter, sendo otimista, uns dezoito aninhos. Do que falaríamos? Saberia ela sobre Jimi Hendrix, aquecimento global, Vinícius de Moraes, Aldous Huxley, Grêmio, Sete Maravilhas modernas, Red Hot Chilli Peppers, Miró? Ah! Está pensando o quê? Vai conversar sobre Guns N’ Roses, novela das oito, dá um tempo!
Acabou a apresentação e virei as costas sem dar assunto e voltei a me esgueirar entre os Black Shirts em direção à rua. Indignado!
Enquanto me esgueirava com dificuldade, constatei a razão daquele olhar malicioso.
Eu estava de camisa laranja!
O único na festa. E daí? Que se danasse!
Tive impulsos de voltar lá e dizer umas verdades a ela.
Saí porta afora para o outro bar.
Mais indignado!
29.1.08
Laranja I
Antes mesmo dos asseios matinais, coloquei a água do chimarrão para esquentar. Coisa de velho. Algo que ainda estou longe de ser, ao menos na idade. Preparei o chimarrão e botei uma música para rodar, enfim, começar o dia com trilha sonora, que é uma coisa que gosto muito de fazer.
Abri, então, minhas duas basculantes, que dão de cara para a rua. Percebi um movimento de pessoas trabalhando e uns barulhos de roçadeiras. Dali uns dois minutos, os caras estavam em frente à minha casa tirando os capins que crescem nas calçadas. Acho isso uma coisa bacana. Cuidar da cidade. E eu ali tomando meu chimas e pá[*].
Só que me dei conta, enquanto servia mais uma cuia (que na verdade é a mesma), que na calçada aqui de casa cresce umas flores entre os vãos das lajotas. E as lajotas aqui de casa são aquelas lajes mesmo, iguais às das pedras de alicerce de casas. Então essas flores acham um vão entre os rejuntes e vão crescendo e não estão nem aí. Eu acho isso incrível.
Eu quero nascer e deu!
Parece até que vejo elas dizendo isso enquanto avistam o céu. Aliás, eu acho que a cor do céu, que é a cor preferida de dois terços dos gaúchos, estimula qualquer vegetal a nascer.
Só que tudo isso eu pensei em coisa de quatro segundos porque daí fui me dar conta de que os caras, que usavam roupas laranja inclusive, estavam ali na minha calçada tirando os capins e pelo visto certamente arrancariam as florezinhas da calçada sem tempo de pedido de clemência. Respire. Olhei pra rua pela basculante e o cara de roupa laranja, que é a cor das roupas dos garis, que a usam pra chamar atenção do trânsito, com a roçadeira a mil na minha calçada. E eu já preparei meu grito tipo “Oou!”.
Bah! Subestimei a sensibilidade do cara, não precisei gritar. Ele passou longe das flores com a roçaderia. No entanto, fiquei ali dê-lhe! chimas vendo o homem trabalhar e eu sem dor na consciência. Ele estava finalizando minha calçada e o trabalho dele era tirar os capins, danassem-se outros fragmentos que estivessem sobre ela, como pedrinhas ou pedacinhos de madeira, e eu ali, já sem saber por que, vendo-o trabalhar.
Pois estávamos tão compenetrados, ele no trabalho dele e eu no chimas (e no trabalho dele) que nem cogitei a hipótese de que uma pedrinha ou um pedacinho de madeira pudesse voar descontroladamente.
E voou!
Veio direto no meu olho esquerdo. Um pedacinho de madeira.
Não tenho mais o que dizer. Só que foi bem feito. Pois saiba que já sou bocaberta por natureza. Daí levar um mega-cisco-flash no olho por ser curioso, é muito azar. Eu dentro de casa. Não é justo. E o olho indiabradamente vermelho, gerando uma cachoeira de lágrimas.
Às onze e trinta as roçadeiras foram desligadas. Começou a cantoria de novo. A mesma música, os mesmos trechos, o mesmo cara. Fui à janela olhar o “tenor”: o mesmo indivíduo da roçadeira que passou pela minha calçada.
Pô! Ele me acordou pra isso?
Chorei até o meio dia.
[*] “Pá”, para os eruditos engessados ou para os de além fronteiras da Grande São Leopoldo, é uma expressão equivalente ao pronome demonstrativo “tal”, que, aqui, assume também a função de “Etc.”, abreviação do latim “Et Coetera”, que significa “E outras coisas”. Enfim, é mais ou menos isso.
Trilogia Laranja

18.9.07
QUASE BETÃO ou Ontem eu vi Kill Bill na tv com lembranças a Manuel Bandeira
(A Fonte - Marcel Duchamp)
Betão entrou já cambaleando no Bar do Tosco. O pessoal viu que tinha um cara meio saliente, mesmo por que ele chegou gritando:
- Essas mulher... tudo chave de cadeia!!
O pessoal que estava no bar ouvindo musiquinha de lancheria e bebendo ceva quente começou a ficar incomodado. Até os seguranças já se entreolhavam pensando no que fazer. E ele gritava:
- Mulher tem que parar de confundir grelo com grilhão!! Chega! Não eras!
Betão era um cara mulherengo. Às vezes era encontrado na rua, cansado, uns perguntavam pra ele:
- Daê?
-...
- Vai dar uma banda no Bar do Tosco hoje?
- Não.
- Bah! Capaz? Por quê?
- Corre o risco de eu comer alguém!
Nisso, ele realmente ia pra casa dormir e desistia de sair. Em outras ocasiões era comum vê-lo palestrando, bêbado:
- Olha cara! Se for feia eu não mato! Mas se eu achar morta eu como!
Mais ou menos assim procede o Betão na floresta urbana da noite leopoldense. Porém, ninguém entendia aquele apóstrofe imprevisto que adentrava o Tosco naquela noite agradável de quinta:
- Não tem mulher aqui que me mereça, e – olhando pro músico – pára de tocar esse tcheco tcheco xarope, não agüento mais ouvir Djavan nesse bar.
Tomou um chute na bunda, mas não se deu conta, tamanha a bebedeira.
Foi pro banheiro.
O ambiente vazio, ele se esbarrava nas paredes e na pia buscando se equilibrar. Quando de repente, mas daqueles repentes extremamente impetuosos, três mulheres interrompem sua micção com outro chute, dessa vez invejável, na bunda, dado pela maior delas, atleta do arremesso de martelo da Sogipa. Então, com a bunda partida em três pela fúria impiedosa do bico ultra fino daquele escarpã, urrou de dor como uma gazela e quase ele todo caiu pra dentro do mictório.
Quando se virou pra entender o que estava acontecendo, deparou-se com três mulheres furiosas, uma delas com uma espada japonesa comprada naquela loja de esoterismo perto do Bourbon, na Rua Primeiro de Março:
- Por que tu tá no banheiro das mulheres?
- Ãh?!
Tuff! Outro chute de escarpã, só que dessa vez ele estava de frente, ai!
- Heim!? Responde? Por que tu tá aqui? No banheiro feminino?:
- Mas...
Tuff! Outro, bah, doeu em mim.
Nisso ele quase não conseguia mais respirar e a que estava com a espada começou a mostrar a lâmina.
- Tu é tarado ou o quê? Agora tu vai ver?
E a lâmina da espada brilhava com a luz da lâmpada fluorescente.
As pessoas que estavam do lado de fora do banheiro conversavam calmas, flertavam, dançavam músicas que não gostavam, porém, um grito de desespero rompeu com o desespero da noite baladeira, era o Betão:
- Mas aqui tem mictório! Aqui tem mictório! Olha, o mict...!
Zzzim!!
Essa foi a noite em que o Betão chegou no Bar do Tosco, gritou, quase bebeu, quase cantou, quase dançou. Depois foi no banheiro e morreu degolado.



