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O Boal estava certo "O que se diz não é nunca o que se ouve. O que se escreve não é nunca o que se lê", assim atiro um sarrafo e talvez vocês recebam uma chicotada, posso chicoteá-los e os os fazer dormir, talvez lhes ofereça cachaça de alambique e vocês reclamem da espuma alta... brabo apenas é tentar quebrar a vidraça e não haver vidro.


Sem preâmbulos trágicos e rodeios introdutórios vou compartilhar um causo que bem podeira ser mesoverídico ou uma inverdade plausível. Porém, trata-se de um fato verdadeiríssimo.
Dirigindo-se ao carro, segurando duas baquetas, um cubo Meteoro e uma guitarra Gianinni velha, azul e branca, à tiracolo, ele se dirige pra o Chevette 83 marrom com pressa e tenta dar atenção a ela, que o enche de orientações sociais:E essa mania de andar sorrindo tem-me rendido muitos e afáveis amigos. E a cada gracejo uma gargalhada ensaia um choro involuntário cheio de rubor e falta gostosa de ar. E essa mania de andar cantando de BL no rosto e fone no ouvido me rende comentários escondidos que os vejo, mas não ouço. Esqueço a letra, cismo, e não rimo.
E essa tua mania de ser o que eu sempre quis tem-me tirado o sono. E a cada bocejo de dia é um choro involuntário e um sorriso a menos. E essa mania de ir embora pra sempre me tem deixado sem graça. Perco o tempo do verso, e não rimo.
Ontem à tarde, no percurso de uma roda de chimarrão entre amigos, toca o telefone celular. Em princípio, uma interrupção em mau momento, pois cortava nossas risadas e afetos ao meio.
Tratava-se de um grande amigo da faculdade, com quem já compartilhei desde discussões complexas e sonolentas sobre linguística até meus êxitos sociais e dissabores amorosos, entre cervejas rápidas e pratos de comida. Atendi:
- Alô!
- Precisa fazer essa voz de macho pra atender?
Dei réplica ao gracejo e continuamos por ali uns quatro minutos, entre bobagens e retóricas enferrujadas. Enfim, fiz aquela clássica pergunta:
- Então, o que que manda?
- Tá onde?
- Na faculdade, tomando um chimas com o pessoal.
Fez mais gracejos, riu por eu ainda estar ali depois de formado, me cobrou a ausência no aniversário dele, e eu quase cobrei a dele na minha formatura. Eu disse que explicaria pessoalmente, mas que lamentava não ter ido. Ele não mora longe. Taquara é aqui perto, quarenta minutos de carro. Continuou:
- Como é tu tá?
- Tranquilo, tranquilo. – resposta de protocolo.
Perguntei também como ele estava, os estudos, a Ana...
Ele consentiu que tudo bem e eu perguntei “e no mais?”, esperando, por fim, a razão por ele ter ligado. Pediria um favor qualquer, para falar com alguém, solicitar pouso como já fizera, qualquer coisa.
Continou querendo saber de mim, do trabalho, eu brevemente disse que as coisas estavam se encaminhando, que a vida aos poucos se ajeita e que tínhamos de nos ver.
Marcamos de nos ver uma hora dessas, ele começou a se despedir aos poucos, fizemos as mesuras de amigos, nos despedimos, desligamos.
Essa mera lembrança dele me fixou o pensamento ao longe e fui vagarosamente, por dentro, sendo tomado de um sorriso que durou quase até o fim da noite: ele tinha me ligado pra saber como eu estava, somente isso.


Desde pequeno, Duda tinha medo de se afogar. Ficava atônito ao ver água sem enxergar o fundo. Aos quatro anos, tanque de lavar roupa era oceano; aos dez, molhar o rosto de manhã cedo era penitência.
O outro, Fabiano, não. Não só era profundo freqüentador do balneário Micose, na vila São Borja, em São Leo, como também não ligava nem pra chuva de granizo. Inclusive, curiosamente, gostava.
Duda levou um cagaço quando era pequeno, numa poça d’água de uma centímetro de profundidade. Fizeram de conta que iriam atirá-lo nela. Desde então, tamanho o cagaço, ficou completamente gago.
Fabiano já é mais fácil de explicar. O fato é que, além de adorar ficar na chuva de granizo, adorava injeção, ficar ajoelhado no milho. Picada de marimbondo então? Nem se fala, ama. Pimenta na ponta da língua, ortiga. Adorava tudo. Mas, quando ele completou doze, foram embora para um apartamento em Porto Alegre e adeus ortigas, marimbondos, chuva de granizo no quintal e quando eram férias, adeus ajoelhar-se no milho. Só quando ficava doente para ter injeção. Sobrava a pimenta na ponta da língua, mas isso já não bastava, Fabiano queria mais. E querendo mais, um dia quebrou, propositadamente, uma xícara do jogo de chá chinês de sua mãe. Ela nem pensou na conseqüência e lhe desferiu tapas na bunda, chineladas, varadas... Fabiano apanhara tanto que, de tamanho prazer, atacou a carteira de cigarros de sua mãe e fumou um Ritz longo escondido e pensando... “o jogo de chás ainda tem cinco xícaras, talvez se eu quebrar três eu ganhe uma dose mais forte e fico uma semana sob efeito... talvez quatro, não, quatro pode me dar uma overdose e daí já vou longe demais”.
Era um mundo novo que lhe nascia, um mundo de prazer e subversão batia a sua porta, e a sua cara, com muita força. Pensava em quantos copos de cristal, uma mão na bunda da garota mais bonita da escola poderia lhe render ótimos arranhões, sem falar na ira do namoradinho, da reguada nas mãos e, o que era melhor, sua mãe.
Só que as coisas tomaram uma certa gravidade. Fabiano, que já tinha vinte e quatro anos, descobrira o sadomasoquismo, e isso passou a envergonhar sua família. Então o encaminharam para um psicanalista, ele foi, lá se encontrou, e olha como o destino é um go-goz-zzzzzador, com Duda. Estava em fase de recuperação. (nota do narrador: Por que um psicanalista? Porque sim, sei lá, estava com preguiça de pesquisar como um psicanalista pode interferir na gagueira, mas pode, pronto!)
Duda estava na sala de espera, fumando. Fabiano entrou com os dois olhos roxos da última tunda da polícia, quase sem enxergar. Tateou uma revista, não sei pra que, e, com dificuldade de encontrar, foi ajudado por Duda que distraidamente, com o cigarro na mão, queimou-o e irritado ainda falou pra Fabiano ter mais cu-cucuii-iiii-dado!! Pronto. Era amor à primeira vista, além de fazê-lo sentir dor Duda ainda xingou Fabiano.
Se viram ainda outras vezes na sala de espera, em dinâmicas de grupo, em reuniões. Só que, ao perceber a amizade exagerada dos dois, o analista avisou a família e alertou: “agora, que se quiserem que eu trate do homossexualismo também, é mais caro!”
Não, as famílias não admitiriam ter que pagar mais ainda para o médico e resolveram cuidar sozinhos da questão. O pai de Fabiano foi bem incisivo: “não quero saber de beijinho na minha frente, bichice tudo bem, mas frescura eu não tolero, e é som fim de semana”.
Curaram-se.
Duda e Fabiano andavam felizes. E o calor aumentava cada vez mais. Caminhavam na praça perto da casa de Duda quando de repente Fabiano viu a poça d’agua da quadra de futebol e bolita. Adivinhem! Fabiano, curado do masoquismo e possuído pelo espírito de liberdade pós-moderno correu freneticamente em direção à poça. Duda estremeceu, branqueou, suas pernas amoleceram, seu coração disparara, a garganta apertada. Fabiano, que agora era Bibinho, se aproximava cada vez mais da poça, na certa pensando em seus pontos no Balneário Micose, corria para a poça de dois centímetros de profundidade. O desespero de Duda fazia correr lágrimas de seus olhos e ele não conseguia gritar, “na...na...na...” ao eu o Bibinho respondia correndo “eu não quero nadar, só vou me refrescar um pouquinho”.
Em vão Duda tentava, e a poça se aproximava. Lembrou de seu susto quando criança e agora estava ali, gago de novo. Tentou gritar uma última vez, em vão... Bibinho se atirou... não saltara mais como antigamente... deu um barrigaço... gritou... gritou de novo... contorcia-se como uma minhoca recém desenterrada... gritava mais.
Duda se aproximou, olhou nos olhos de Bibinho... olhou outra vez... o prazer nascera nos olhos de Fabiano novamente.
Enquanto Duda chamava o socorro, as pessoas notaram que ele, virilmente, cuspiu no chão e coçou o saco.
Nunca mais viram os dois juntos.
por Leandro Coimbra
estamos na linha divisória da nossa geração. a ascenção da esquerda latino-americana é inversamente proporcinal à nossa força de luta. o império norte-americano prestes a implodir-se... tanto e tanto... monocultura, deserto verde. amazônia sob planejamento inglês de privatização...
